Remoção de tinta revela retrato do século 19 em igreja de Itu

Obra, na atual sede do Exército, será mostrada em exposição sobre barroco que vai desta 4ª até dia 6 de julho

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2008 | 16h10

Um trabalho de prospecção realizado no antigo Colégio São Luís, atual sede do Regimento Deodoro do Exército, em Itu, revelou a existência de pinturas do final do século 19 sob camadas de tintas mais recentes. A remoção das tintas de um dos medalhões que ornam a nave principal da Igreja de São Luís Gonzaga, no interior do quartel, expôs um retrato de São Francisco Xavier feito entre 1886 e o final daquele século. A obra seria do artista e religioso italiano Giovanni Maria Alberani, que participou da fundação do colégio e esteve na direção quando a escola era administrada pelos jesuítas. O achado será mostrado ao público durante uma exposição sobre o barroco brasileiro desta quarta-feira, 11, até 6 de julho no regimento. A mostra vai incluir cerca de 40 obras de artistas do barroco, entre elas 10 esculturas de Antônio Francisco Lisboa, o "Aleijadinho", das quais nove são inéditas - nunca antes estiveram numa exposição pública. O curador José Marcelo Galvão de Souza Lima, autor do trabalho de prospecção que revelou as pinturas, acredita que as obras de arte foram feitas no período entre o início da construção da igreja, em 1886, e sua inauguração em 1891. "Pode ter sido também nos anos seguintes." Ele conta que, quando o comando do quartel solicitou a pesquisa, tinha quase certeza de que encontraria alguma coisa interessante. "Só não esperava topar com algo tão importante." Alberani é autor do famoso quadro de São Luiz Gonzaga, no próprio colégio, que em razão de sua profundidade, mais parece uma escultura. O tenente-coronel Carlos Sérgio Camara Saú, comandante do 2º GAC L, acredita que os outros cinco medalhões também contêm pinturas do artista italiano. Ele arrisca o palpite de que um deles, colocado no plano frontal, ao lado do que foi descoberto, pode ter o retrato do patrono dos jesuítas, Santo Inácio de Loyolla. Para o coronel, a revelação das pinturas contribuirá para se ter uma visão mais completa da obra de Alberani e sua conseqüente valorização.  Os jesuítas permaneceram em Itu até 1917, quando abriram o Colégio São Luís em São Paulo e se mudaram para a capital. O conjunto arquitetônico foi adquirido pelo Exército e a igreja, transformada em depósito de materiais e, depois, em alojamento dos soldados. O coronel Saú acredita que, ao desativarem a igreja, os jesuítas tiveram o cuidado de recobrir as pinturas sacras. Só no final da década de 70 as instalações voltaram a ser destinadas ao uso religioso. "Na pintura sobreposta, houve a cautela de utilizar material que não danificasse a obra original." Para seguir com o trabalho de prospecção, o comandante do Regimento Deodoro espera fazer parcerias com outros órgãos públicos e a iniciativa privada. "Há muito mais a ser revelado, mas vamos precisar de parceiros para dar seqüência ao trabalho." Já se sabe que as paredes da igreja também contêm afrescos e pinturas da época dos jesuítas, talvez produzidas pelo mesmo artista. A exposição ficará aberta diariamente das 10 às 18 horas. As peças do "Aleijadinho" estarão dispostas num ambiente preparado pelo curador para remeter o visitante ao período áureo do barroco brasileiro, entre os séculos 18 e 19. Outras obras de artistas do período, algumas provavelmente do próprio "Aleijadinho", mas ainda em estudo de atribuição, dividem espaço com pinturas sobre madeira e detalhes arquitetônicos de construções da época. O Regimento fica na Praça Duque de Caxias, no centro de Itu.

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