JB Neto
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Relíquias perdidas entre manobristas

Estacionamentos do centro velho de SP ocupam casarões históricos - alguns mantêm as marcas de seu passado glorioso, como paredes de mármore e pé-direito de 5 metros

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2011 | 00h00

Dois painéis de quase 2 metros de largura ostentam fotos aéreas antigas da cidade de João Pessoa, em preto e branco. Ambos estão pendurados em uma parede de mármore, bem ao lado da entrada de um salão amplo entrecortado por grossas pilastras redondas. O local, antes sede paulistana do Banco do Estado da Paraíba, é hoje um estacionamento de automóveis, mas ainda mantém a pompa das épocas prósperas do centro velho de São Paulo.

A garagem, localizada no número 111 da Rua Libero Badaró, perto do Largo São Francisco, é apenas um exemplo de um fenômeno que vem se intensificando na região central da capital na última década: a transformação do térreo de prédios e casarões abandonados em estacionamentos. Como o centro voltou a ser procurado por moradores, órgãos públicos e empresas, a demanda para estacionamentos vem crescendo ano a ano e quem tinha espaço ocioso percebeu a chance de lucrar improvisando garagens. A primeira hora diurna nesses estacionamentos custa R$ 9.

Os motoristas mais atentos conseguem perceber pequenas relíquias perdidas entre o vaivém dos manobristas. "Esses painéis aí são "da hora". Sempre vem alguém perguntar de onde é, mas a gente nem sabe direito", conta um dos funcionários do estacionamento da Libero Badaró, referindo-se às fotos aéreas de João Pessoa. Todo o ambiente térreo antigo da agência bancária continua de pé. Os outros 11 andares do Edifício Continental estão vazios - o Banco da Paraíba funcionou no local até ser privatizado, em 2001.

No mesmo quarteirão, pelo menos dois outros estacionamentos funcionam em casarões do início do século 20. Ao lado do banco, carros ocupam o térreo e o subsolo de um prédio histórico de três andares, que ainda mantém um pequeno balcão de mármore no canto direito - nada funciona nos outros pisos. Do outro lado da rua, o imóvel foi melhor aproveitado: no exterior, a fachada da casa com varandas e janelas amplas resiste; do lado de dentro, os quatro pisos foram conectados com rampas para guardar os automóveis.

Outra garagem que mantém detalhes históricos funciona no imóvel do Museu do Disco, loja de LPs na Rua Conselheiro Crispiniano, famosa nos anos 1970 e 1980. As grandes portas de vidro com detalhes quase seculares de metal, com pé-direito de mais de cinco metros, abrem-se todas as noites para guardar veículos de frequentadores do Teatro Municipal.

"É um prédio bonito, mas os discos diminuíram e viraram CDs. Então, tive de arrumar um lugar menor", diz o dono do Museu, Nazaré Avedissian, de 67 anos, que agora gerencia a loja em um pequeno comércio na Quintino Bocaiuva. O presidente da Associação Preserva São Paulo, Jorge Eduardo Rubies, pede uso mais nobre para os espaços. "Se tivéssemos (no centro) prédios-garagem ou estacionamentos subterrâneos, como em Paris, isso não seria necessário."

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