Rafael Arbex / Estadão
Rafael Arbex / Estadão

Depoimentos causam comoção no 2º dia de júri da maior chacina da história de São Paulo

Com relatos de sobreviventes, testemunhas e familiares, julgamento foi marcado por apelo emotivo em Osasco

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2017 | 19h27

OSASCO - Com relatos de sobreviventes, testemunhas e familiares, o segundo dia do júri da maior chacina de São Paulo, que terminou com 17 mortos em 2015, teve muito apelo emotivo e até choro de advogado de defesa.

A testemunha que diz reconhecer o PM da Rota Fabrício Eleutério, um dos três réus em julgamento, também prestou depoimento e voltou a apontá-lo como o autor do disparo que o atingiu. A defesa contesta o relato e diz se tratar de uma "testemunha profissional".

O julgamento recomeçou às 10h, de portas fechadas, com o depoimento de "Elias", que é testemunha protegida. Em juízo, ele voltou a reconhecer Eleutério, desta vez em poucos segundos e sem precisar de óculos - ao contrário do que ocorreu em audiência preliminar, quando a vítima chegou a urinar nas calças e demorou mais de 9 minutos para apontar o policial que o baleou no braço.

"Elias" é um homem pardo, entre 30 e 40 anos, que voltava de uma partida de futebol na Rua Suzano, em Osasco, quando foi alvejado. Apesar de ferido, ele conseguiu fugir e se esconder embaixo de um veículo. A vitima só foi localizada pelas investigações cerca de uma semana após a série de ataques.

O advogados de defesa de Eleutério, Nilton Nunes, afirmou que a vitima entrou em contradição várias vezes. Entre elas, cita a ausência do relato da fuga em depoimento à polícia. Segundo Nunes, "Elias" também declarou aos jurados que foi por conta própria ao DHPP, enquanto o relatório da investigação diz que ele foi conduzido.

O principal recurso que a defesa espera usar para desmentir "Elias", no entanto, é o depoimento da testemunha protegida 798, que também falou em juízo nesta terça-feira, 19. Aos jurados, ela disse estar em um bar quando ouviu os disparos e viu que um jovem branco, entre 15 e 17 anos, foi baleado.

"Caso os jurados decidam que ele mentiu, podemos processa-lo por denunciação caluniosa", afirmou Nunes. Segundo ele, a medida para representar contra "Elias" está sob análise.

Já o promotor Marcelo Alexandre de Oliveira, responsável pela acusação, afirmou que a testemunha 798 caiu em contradição. "Ele já disse que vitima era branquinha, depois que era morena, depois volta pra branquinha." Também segundo Oliveira, "Elias" passou mal e "quase vomitou" ao depor.

Choro. Ao longo do dia, foram ouvidas nove testemunhas - oito delas sem a presença dos réus. Em dois dos depoimentos o advogado Evandro Capano, que representa o PM Thiago Henklain, fez perguntas chorando.

A primeira vez, no depoimento de Zilda Maria de Paula, mãe de Fernando Luiz de Paula, um dos mortos da chacina. A segunda, no de Gilberto Gonçalves da Silva, pai de Letícia Silva, de 15 anos, a mais jovem e única a mulher a morrer nos ataques.

"Eu tenho um filho, é claro que eu me sensibilizo com esses pais. O que aconteceu foi um absurdo, mas isso não justificar o outro absurdo que é tentar culpar quem não foi responsável, disse Capano. Para o promotor Oliveira, o choro foi "teatro".

Muito emocionado, o pai de Letícia chorou várias vezes durante seu depoimento. Zilda também chorou ao contar do filho e falou sobre toques de recolher nesta semana, no local onde mora. "Recebi mensagens de Whatsapp e ouvi comentários da vizinhança."

Um dos depoimentos mais fortes, entretanto, foi o do autônomo Marcos Antonio Passini, um dos sobreviventes do Bar do Juvenal, onde oito pessoas foram assassinadas a tiro. Baleado nas costas, ele conseguiu correr para os fundos do estabelecimento, que estava em obras, e caiu numa vala.

"Acho que foi isso que me salvou", disse a vítima, que também relatou ter visto o atirador de jaqueta, luvas e touca ninja - por isso, não poderia reconhece-lo. "Teve pessoas que morreram em cima de mim, tentando escalar a parede."

Em plenário, ele também disse que, antes da chacina, chegou a reconhecer dois frequentadores do bar em imagens que mostraram na TV o latrocínio de um GCM de Barueri, dias antes. "Essas pessoas já estavam presas", afirmou. "Não tinha motivo para acontecer isso."

Um dos momentos de maior tensão foi com a testemunha Renato Antônio Santos, que não confirmou no Tribunal o depoimento que prestou na Corregedoria da PM. 

Na fase de investigação, ele disse que havia levado um "enquadro" da PM na noite da chacina, em uma próxima à dos ataques, e que os policiais atenderam a uma ligação durante a abordagem e depois mandaram ele voltar para casa. "Não me recordo", disse em juízo.

Questionado se ele estava com medo, Santos demorou 10 segundos para responder. "Sim."

Irmã. Última testemunha a depor nesta terça-feira, Fabiana Augusta Eleutério defendeu o irmão, o PM da Rota Fabrício Eleutério, acusado de matar 17 pessoas a tiros no dia 13 de agosto de 2015. "Eles sempre gostou de servir a sociedade, de proteger, de defender, assim como fez com minha família", afirmou. "Sempre tive orgulho de ele ser policial porque sei que ele ama a profissão. Para ele, proteger não é matar, é dar a vida."  

O depoimento de Fabiana foi o único do dia que aconteceu na presença dos três réus. Também são julgados no Fórum Criminal de Osasco o PM Thiago Henklain e o GCM de Barueri Sérgio Manhanhã.

Emocionada, Fabiana contou aos jurados que, na época da série de ataques, o irmão estava na iminência de ter a prisão decretada por outra chacina, ocorrida em 2013. Ela chorou ao falar da família. O irmão, sentado atrás dela, chorou junto. "Foi uma semana muito corrida. Na terça (11 de agosto de 2015), a advogada tinha ido à Brasília para recorrer. A gente precisou juntar a família para pagar os custos", disse.

Por causa da acusação, Eleutério já tinha ficado um tempo preso, mas estava fazendo tratamento psicológico na PM. "Ele já estava arrumando as coisas para voltar para o Romão Gomes (presídio militar)."

Segundo relatou no Tribunal, o policial da Rota morava com a irmã e com os pais, em Osasco, antes de ser preso. À época, ele namorava havia dois meses e teria passado a noite da chacina na casa da noiva, de acordo com Fabiana. "Para mim, é muito difícil olhar a imagem dele na TV, dizendo que ele é um monstro", disse. "Eu sei o irmão que eu tenho."

No plenário, contou que soube dos ataques pelo noticiário e que teria chegada a perguntar ao irmão: "Será que alguém pode te acusar?". Ele teria dito que também queria saber quem eram os autores dos ataques.

Fabiana relatou que contribui com as investigações da Corregedoria da PM, entregando o tíquete de estacionamento de um shopping, por onde Eleutério por volta das 19 horas, e levantando todos os locais com câmeras de segurança no percurso que ele informou ter feito. Uma delas, na proximidade da casa da namorada "Infelizmente, se a câmera estivesse funcionando, mostraria que ele entrou e saiu nos horários informados." 

A irmão também afirmou que a família é evangélica e que Eleutério, dias antes, prestava testemunhos contando a história de como foi acusado pela chacina anterior. "Ele costumava pregar nas igrejas."

Eleutério é o único dos réus - todos se declaram inocentes - que foi reconhecido por uma testemunha protegida, o "Elias". A defesa nega que o policial tenha participação na chacina e afirma que o depoimento de "Elias" é contraditório e que a testemunha não estaria no local que disse ter sido baleada.

Após dois dias de julgamento, 13 testemunhas foram ouvidas e outras 19 dispensadas. Nos próximos dias, o júri deve ouvir mais 11 testemunhas, além do interrogatório dos três réus e da fase de debate entre Ministério Público e os advogados de defesa. A expectativa é que o julgamento dure ao menos até sexta-feira, 22.

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