Werher Santana/Estadão
Werher Santana/Estadão

Reintegração do Parque Augusta tem princípio de tumulto e 3 horas de negociação

Confusão aconteceu quando Tropa de Choque entrou no terreno, onde poucos manifestantes permaneciam; uma pessoa se feriu

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

04 de março de 2015 | 08h10

Atualizado às 17h07

SÃO PAULO - Prevista para ser pacífica, a reintegração de posse do Parque Augusta, na região central da cidade, teve princípio de confusão, resistência de ativistas em cima de uma árvore e mais de três horas de negociações para que toda a área fosse desocupada. Uma jovem de 25 anos também ficou ferida após parar em frente a policiais militares que se preparavam para entrar no terreno. Depois da ação, um grupo de cerca de 200 pessoas, contrárias à construção de um conjunto de prédios no local, marchou até a Prefeitura, interditou o Viaduto do Chá por uma hora e plantou mudas no Vale do Anhangabaú.
Os ativistas passaram no total 47 dias acampados no terreno de 23,7 mil metros quadrados, entre as Ruas Caio Prado e Marquês de Paranaguá. Avisado sobre a reintegração, o grupo organizou uma série de eventos para a madrugada de despedida, que acabaria com a entrada da Polícia Militar para cumprimento da ordem judicial. O tumulto aconteceu no momento em que a Tropa de Choque, usando escudos, se preparava para entrar e fazer a varredura da área, onde poucos manifestantes ainda permaneciam por volta das 7h20 - cerca de duas horas após a chegada dos oficiais.
Uma das ativistas, Isabela Alzira, de 25 anos, ficou parada na entrada do Parque Augusta e acabou sofrendo ferimentos na perna direita e coxa esquerda. "Os policiais estavam avançando pela calçada. Eu fiquei parada e eles me bateram", relatou. Nesse momento, a maior parte dos cerca de 300 manifestantes que acompanharam a reintegração já estava do lado de fora do parque, na Rua Marquês de Paranaguá. Houve um princípio de tumulto e várias pessoas gritavam em coro: "Sem violência! Sem violência!" Em pouco tempo, os ânimos foram contidos.
Durante a varredura, a PM encontrou quatro pessoas em cima de uma figueira centenária, dentro do parque, que resistiam em deixar o espaço. Entre eles, estava o ativista Wesley Rosa, de 27 anos. Ele queria garantias de que poderia cuidar das árvores plantadas no parque após o fechamento dos portões. "São cerca de 200 mudas que estão em uma área árida e precisam ser regadas. O parque não pode ficar fechado. O acesso da população ao bosque é garantido por contrato", disse. De fato, as construtoras Cyrela e Setin assinaram um acordo de compra do terreno em 2008, com compromisso de manter a passagem pública por 60% da área.
"A gente não queria sair do parque para não interromper o processo que iniciamos", disse o produtor musical André Napoleão Nápoles, de 21 anos, que também ficou encastelado sobre a figueira. Ao longo da ocupação, que os ativistas chamam de "vigília criativa", foram organizados apresentações artísticas e aulas públicas sobre temas como urbanismo e ocupação da cidade. "Amanhecer em cima da árvore foi bem interessante. Você se sente ainda mais conectado com o parque."
Negociação. Cercados por dezenas de policiais, os manifestantes negociaram sua saída por cerca de duas horas. "Eles foram bem pacíficos", disse Rosa, sobre a atitude da PM. "A gente sempre tem medo de ser vítima de violência, mas o clima foi de respeito o tempo inteiro", afirmou Nápoles. Para o músico Daniel Scandurra, de 26 anos, do Organismo Parque Augusta, o fato de não ter havido confronto com a PM foi o de menos. "A maior violência que Polícia Militar poderia cometer é essa: fechar os portões do parque", afirmou.
"A Polícia Militar tem papel somente de garantir que o mandado judicial seja cumprido", disse o major Luis Augusto Ambar, comandante da operação. De acordo com ele, cerca de cem oficiais participaram da reintegração de posse e armaram bloqueios nas proximidades do Parque Augusta, impedindo que qualquer pessoa, incluindo moradores, ultrapassasse o perímetro da ação. "A gente vem com efetivo suficiente para garantir a segurança não só dos ocupantes, como também das pessoas das redondezas", justificou.
A presidente da Associação dos Moradores e Amigos do Bairro da Consolação e Adjacências (Amacon), Marta Lilia Porta, discorda da opinião do ativista sobre a reintegração. "É um absurdo invadir um espaço privado. Sem contar que os inconvenientes durante esses dias, como o barulho, foram muitos", reclamou. Ela, no entanto, não se opõe à criação do Parque Augusta. "A área tem de ser preservada, mas dentro da lei. E a Justiça decidiu que isso caberia às empresas." 
Marcha. Na medida em que deixavam o terreno do Parque Augusta, os manifestantes passaram a se reunir na rua para protestar. Em faixas exibidas pelo grupo, era possível ler: "Por um Parque Augusta 100% público, 0% prédio". Com megafones e tambores, os ativistas também cantaram e gritaram palavras de ordem. Uma das paródias, chamada "Funk da Especulação", ironizava a relação de construtoras com o poder público. "Eu vou molhar a sua mão / vou te botar lá de patrão / vou bancário sua eleição / então aprova, aprova, aprova a construção", dizia a letra.
Os últimos quatro remanescentes decidiram descer da árvore por volta das 9h20. Com a reintegração de posse concluída, a Polícia Militar encerrou os cercos e cerca de 200 manifestantes iniciaram uma passeata da Rua Augusta até a Prefeitura. O objetivo era conseguir uma reunião com o prefeito Fernando Haddad (PT) para discutir a desapropriação do terreno. No cruzamento da Rua da Consolação com a Avenida São Luís, o grupo incendiou um prédio de papelão em frente a um estande da construtora Setin, que foi isolado pelos policiais militares.
Bloqueio. Os manifestantes bloquearam o Viaduto do Chá entre 10h45 e 11h45. Sentados na via, em frente ao prédio da Prefeitura, pediam a presença de Haddad no local. "O prefeito tem de ter boa vontade, cumprir a lei sancionada e fazer a vontade da população de São Paulo, que quer o Parque Augusta", afirmou o vereador Gilberto Natalini (PV), que mediou conversas com a administração municipal durante o protesto. Aos ativistas, foi oferecida uma reunião com o secretário de Relações Governamentais, Alexandre Padilha, mas a proposta foi recusada. No final do ato, os ocupantes do Parque Augusta desceram até o Vale do Anhangabaú para plantar mudas em canteiros. 

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