Reintegração de posse em São José dos Campos termina com três feridos, 18 presos e oito carros queimados

O 'Pinheirinho' ganhou repercussão nacional na semana passada, quando moradores se armaram para resistir à reintegração. A área ocupada desde 2004 pertence à massa falida do grupo Selecta, de Naji Nahas

Gerson Monteiro e João Carlos de Faria, especial para O Estado de S. Paulo

22 Janeiro 2012 | 20h24

Texto atuliazado às 6h20 (23/01/2012)

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - A Polícia Militar impôs toque de recolher na noite deste domingo, 22, no Pinheirinho, em São José dos Campos. A comunidade foi desocupada após uma decisão judicial que determinou a reintegração de posse da terra. Confrontos entre policiais e manifestantes deixaram três feridos, 18 presos e oito carros queimados.

O Batalhão de Choque ocupou a área de 1,3 milhão de metros quadrados pela manhã. A operação surpresa começou às 6h e a comunidade onde viviam 1,5 mil famílias, cerca de 6 mil moradores, foi tomada em 40 minutos.

Segundo a PM, um carro de reportagem da TV Vanguarda, afiliada da Rede Globo, e um outro da Fundação Helio Augusto Souza, que dá apoio à Prefeitura na desocupação foram queimados. Durante o dia, manifestantes fecharam a Rodovia Presidente Dutra por 30 minutos, provocando lentidão entre os quilômetros 133 e 162.

Ainda de acordo com informações da Polícia Militar, os moradores não ofereceram resistência na reintegração de posse do terreno e os conflitos foram contra  manifestantes que não fazem parte da comunidade. Os moradores ainda dormiam quando os milhares de barracos começaram a ser desocupados. As famílias que tinham algum abrigo na cidade foram encaminhadas para ônibus. Quem não tinha onde ficar era levado para o centro de triagem, montado em um centro esportivo. Os desaocupados, no entnato reclamam de falta de condições de higiene e limpeza no local.

Sem rumo. Rodrigo Henrique Gonçalves, de 30 anos, foi um dos primeiros a deixar a área com a família. "Fomos pegos de surpresa, nem temos para onde ir", disse.

Jenifer Moreira, de 18 anos, grávida de cinco meses, aguardava a chegada da polícia para identificar sua casa e seguir para a triagem. Ela estava dormindo quando a PM chegou. "Foi uma gritaria. Os policiais chegaram jogando bomba e atirando spray. Fiquei com os olhos ardendo", contou.

Informações desencontradas aumentavam ainda mais a tensão dos moradores. "Disseram para ir para a triagem, mas já rodei tudo e não consigo chegar lá", reclamava o comerciante Saaid Ahmad Ali, há três anos no assentamento.

Sandra Maria Lopes, grávida de oito meses, chegou a discutir com os policias por causa do impasse. "Já estamos no olho da rua e agora ficam com essa palhaçada", disse a dona de casa, momentos antes de ter sua passagem liberada pela PM.

"Só Deus para nos ajudar nesse momento", disse Marcos Roberto Claro, que levava cinco crianças e a esposa em um Chevette com o pneu furado.

Operação. Durante todo o dia, dois helicópteros da PM sobrevoaram toda a área, transmitindo imagens em tempo real para o comando da PM montado em uma escola próxima.

Em entrevista coletiva, o coronel da PM de São José dos Campos, Manoel Messias, afirmou que a ação foi um sucesso e toda a área foi retomada sem enfrentamentos. Segundo ele, o "fator surpresa" foi crucial para a ação de reintegração de posse.

À tarde, um grupo de três pessoas iniciou um tumulto no centro de triagem. A Guarda Civil Municipal chegou a dar tiros para o alto e disparou balas de borracha contra a multidão.

Manifestação. Em protesto contra a ação no Pinheirinho, cerca de 500 pessoas tomaram a Avenida Paulista no início da noite deste domingo.

No microblog Twitter, a manifestação já era apelidada por alguns internautas como "Occupy Pinheirinho", uma referência ao movimento de protesto norte-americano contra o mercado financeiro "Occupy Wall Street".

Munidos de faixas e cartazes, os manifestantes chamavam a operação da PM de criminosa. A ação foi organizada pela internet e contou com a presença do senador Eduardo Suplicy (PT). "A cada telefonema que recebo, ouço relatos de abusos por parte da polícia, jogando bombas", afirmou ele, que anteontem foi a São Jose dos Campos. De acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), o congestionamento era de 1,6 km.

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