Regularização da Copa do Povo é aprovada pelos vereadores

Com a notícia da aprovação, cerca de 4 mil sem-teto transformaram o acampamento montado em frente à Câmara em um salão de festas

Adriana Ferraz e Bárbara Ferreira Santos, O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2014 | 19h42

Atualizada às 21h12

SÃO PAULO - Menos de uma hora depois de aprovar o novo Plano Diretor de São Paulo, os vereadores também deram aval para a regularização da Copa do Povo, ocupação promovida pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) em Itaquera, na zona leste. A área poderá agora ser destinada para moradia popular. Foram 41 votos favoráveis, 3 contrários e uma abstenção. 

Com a notícia, cerca de 4 mil sem-teto transformaram o acampamento montado na frente da Câmara Municipal em um salão de festas. A comemoração teve direito a samba, discursos de líderes, fogos de artifício e até churrasco. Por ordem da presidência da Câmara, um telão foi montado do lado de fora do prédio, que fica no Viaduto Jacareí, para que os manifestantes pudessem acompanhar voto a voto a decisão sobre as regras que beneficiam quatro ocupações do MTST, além da Copa do Povo. Com votação nominal, foi possível saber qual a decisão de cada parlamentar. Se favorável, o grupo aplaudia. Se contrário, vaiava.

Dentro do plenário, o clima de festa era o mesmo, sob o comando do líder dos sem-teto, Guilherme Boulos, que chegou a vaiar votos contrários à aprovação do Plano Diretor. Ansioso e nitidamente aliviado, ele aplaudiu o placar final e reforçou que o resultado é consequência de uma “mobilização do povo”.

O resultado deixou muitas pessoas emocionadas e ansiosas para ligar e avisar as famílias que a “luta tinha dado certo”. Laís Alves, de 17 anos, ligou para a mãe para avisar sobre a votação. “Quero falar para ela que nós ganhamos, que essa foi uma vitória.” Integrante da ocupação Nova Palestina, na zona sul, Francisco Monteiro, de 41 anos, demonstrava a mesma alegria, mas com ressalvas. “Ganhamos uma etapa, mas a luta ainda não acabou. Agora temos de tirar o plano do papel”, disse. 

O churrasco de comemoração teve início às 19h, pouco depois da aprovação da regularização da Copa do Povo. Pela primeira vez, um carro de som do tamanho de um trio elétrico foi contratado para garantir a festa. Os coordenadores do MTST pediram para cada sem teto levar 1 kg de carne para o churrasco. Às 15 horas, horário de início da sessão, cerca de 250 kg de carne, linguiça e frango, além de 50 sacos de carvão, já estavam preparados para alimentar o grupo. “Hoje a festa vai até tarde”, disse Maria Rodrigues de Lima, de 56 anos, que comandava a cozinha e a churrasqueira, feita de tijolos na praça ao lado da Câmara.

Vitória parcial. Ao contrário do discurso dos líderes do MTST, a aprovação da lei que regulariza a Copa do Povo representa um vitória parcial, ao menos por enquanto. Isso porque o projeto aprovado permite que a área receba um empreendimento do programa federal Minha Casa Minha Vida Entidades, mas não assegura ao movimento a garantia de que ele será contemplado. Mesmo assim, o cadastro das famílias que ocupam o terreno começou a ser feito nesta segunda pela Prefeitura.

De autoria do vereador José Police Neto (PSD), a lei votada nesta segunda foi a sexta opção encontrada pela Casa para contemplar as reivindicações dos sem-teto, que ameaçavam promover outras ocupações, caso suas solicitações não fossem atendidas. Na última semana, Boulos se reuniu com diversas lideranças para “costurar” uma saída para sair do impasse.

Nesta segunda, com as duas leis aprovadas, Boulos deu a entender que o MTST não fará novas ocupações, ao menos por enquanto. “Isso era por causa do Plano Diretor (ameaça de fazer uma ocupação por semana). Se o plano foi votado, não tem mais necessidade disso. Agora, a demanda por moradia em São Paulo é gritante, o fato de o preço do aluguel ter aumentado e feito com que pessoas não tivessem mais onde morar é uma coisa muito intensa. Certamente, se essa lógica não for revertida, com certeza novas ocupações vão acabar surgindo na cidade.”

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