Região era último reduto livre para tráfico

Microtraficantes de várias regiões atuam na cracolândia; 25 foram presos desde o dia 3

BRUNO PAES MANSO, WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2012 | 03h03

Microtraficantes que dividem as pedras de crack para consumir uma parte, revender outra e assim sustentar o próprio vício. É esse o perfil de boa parte dos traficantes que transitam pela região da cracolândia. Eles obtêm as drogas de pequenos fornecedores, vindos de todas as regiões da cidade, que encontram no centro liberdade para colocar a mercadoria no mercado.

A análise é do diretor do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc), Wagner Giudice, que assumiu o posto no ano passado e passou a concentrar os esforços de investigação na cracolândia. "A região é o único território livre na cidade para venda da droga. Não existe um grande criminoso que domina a área e por isso os fornecedores chegam de todas as partes de São Paulo", explica.

Em bairros das periferias onde há maior concentração de bocas de droga, a instalação de um novo traficante exige negociações com os vendedores já estabelecidos. "Essa barreira imposta pelos concorrentes não é vista na cracolândia", diz Giudice.

A intensa concentração de microtraficantes - muitos usuários - torna o trabalho policial um desafio. Das 26 pessoas presas pela PM na primeira semana da Operação Centro Legal, segundo o comandante-geral da PM, Alvaro Batista Camilo, 25 eram traficantes e um estelionatário.

Apesar do número elevado de prisões, apenas 447 gramas da droga foram apreendidas. Camilo afirma que, apesar de aparentar um volume insignificante, o total corresponde a cerca de 1.200 pedras de crack. "Vamos discriminar nos boletins de ocorrência o total de pedras para que a população tenha um retrato mais fiel do trabalho feito."

Ontem, o Estado testemunhou a prisão de dois homens que portavam crack na Alameda Barão de Piracicaba e foram algemados por homens do Denarc e colocados em uma Kombi branca. A ação foi acompanhada pelo ex-funcionário público Everaldo Santos, de 35 anos, que também havia sido detido no dia anterior.

Ele contou que é comum a divisão das pedras de crack entre os consumidores para revenda. Santos, por exemplo, havia dividido uma pedra de R$ 10 em 10 pedaços e revendia quantidades pouco maiores que um grão de arroz a R$ 1. "Eles viram que eu era só consumidor e fui liberado", disse.

A defensora pública Daniela Skromov, do Núcleo de Direitos Humanos, vê as prisões dos supostos traficantes com reservas. "Parecem prisões para averiguação, que não existem mais desde a Constituição de 1988."

Agressões. No ano passado, o Denarc prendeu 200 pessoas suspeitas de tráfico na cracolândia e apreendeu 43 quilos de crack. O delegado Edison Remigio de Santi afirmou que depois da operação da PM na região os policiais civis passaram a tentar identificar os novos pontos de venda de drogas, que continuam a ocorrer. "Antes estava concentrado, agora se espalhou e precisamos acompanhar a movimentação."

De Santi defendeu a entrada dos PMs na área como forma de reprimir os traficantes, que desde o fim do ano passado passaram a agredir policiais e investigadores que transitavam na região. Entre novembro e dezembro, segundo ele, houve uma série de agressões a agentes à paisana que estavam disfarçados para investigar o tráfico na região. Um investigador chegou a ter a arma tomada e precisou pedir apoio. Quando as viaturas chegaram, foram apedrejadas. "Estava um ambiente muito tenso. A entrada dos PMs aliviou o clima", diz De Santi.

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