Região de S. José dos Campos tem quadro mais grave

Frente Parlamentar destaca uso excessivo de crack sobretudo por cortadores de cana; indústria nega qualquer incentivo ao vício

O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2011 | 03h01

O avanço do crack foi notado principalmente em cidades das regiões nordeste, central e do Vale do Ribeira, onde o número de usuários que procuraram a rede de saúde em busca de tratamento já é igual ou até mesmo superior ao dos alcoólatras. Durante a apresentação dos resultados, a Frente Parlamentar também apontou o consumo da droga entre cortadores de cana de açúcar como motivo de preocupação em todo o Estado.

Nas cidades próximas de Barretos, o crack já é responsável por 33% das pessoas atendidas por consumo de drogas, ante 25% daqueles que buscaram ajuda ou necessitaram de auxílio por culpa do álcool. Os dependentes de crack (45%) também superam os alcoólatras (40%) entre aqueles que passaram por serviços de saúde na região central, que tem entre as maiores cidades Araraquara e São Carlos.

Na região de Ribeirão Preto, o crack divide com o álcool a necessidade de atenção das autoridades de saúde. Cada uma das substâncias responde por 33% do número de usuários que buscaram ou necessitaram de algum tipo de atendimento. Também é a localidade do Estado onde se fez mais presente o tratamento de dependentes de drogas sintéticas, como ecstasy (4%).

Cana de açúcar. Os deputados indicam também que há uma conivência dos setores produtores de cana de açúcar com o uso de crack. "Hoje há uma certa liberação para que esse trabalhador das usinas possa trabalhar por 14, 15 horas, consumindo crack. Há um grande poder físico de produção e, depois de quatro ou cinco anos, morrem ou são afastados", afirma o coordenador da Frente Parlamentar, Donisete Braga (PT).

Questionada, a União da Indústria da Cana de Açúcar (Unica) disse considerar absurda qualquer insinuação de que empresas do setor sucroenergético paulista estejam incentivando o uso de drogas ilícitas de qualquer tipo e com qualquer finalidade. Também criticou a pesquisa, dizendo que não há metodologia ou margens de erro que permitam chegar a conclusões como a citada por Braga. Disse ainda que tratam situações isoladas como se fossem norma dentro de um setor inteiro. A Unica respondeu também que recomenda às empresas do setor sucroenergético o cumprimento integral das leis trabalhistas e dos acordos coletivos de trabalho.

Inversão. Popularidade, menor custo em relação a outras drogas e alto poder de dependência são os principais fatores que inverteram a ordem de atendimentos nos últimos anos no Centro de Atenção Psicossocial de São José dos Campos, onde o álcool já chegou a ser responsável por 80% dos atendimentos.

Segundo Patrícia Minari, coordenadora do Caps, 80% dos dependentes atendidos pelo centro são homens de até 35 anos, geralmente com uma família desestruturada, sem emprego. "Temos outros casos, até mesmo de pessoas com boa situação e família, mas o perfil ao qual a droga leva é degradante." A procura por tratamento aumentou acentuadamente nos últimos dois anos. Deixar o vício não é tarefa fácil. "O crack tem um potencial de deixar a pessoa dependente rapidamente. É uma droga altamente destrutiva."

Leitos. Outro dado que chamou a atenção foi a falta de leitos para tratamento na maioria dos municípios paulistas. Entre aqueles que responderam, 79% afirmaram não ter onde internar os pacientes, caso exista a necessidade. Em 54% dos municípios, mais da metade dos dependentes volta a usar a droga após o tratamento. /WILLIAM CARDOSO e GERSON MONTEIRO, ESPECIAL PARA O ESTADO

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