Reforma da Praça Roosevelt muda comércio da região

Aumento dos aluguéis já tem feito lojistas deixarem a área; grupo de teatro Os Satyrus também está à procura de uma nova sede

JULIANA DEODORO, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2012 | 02h05

Revitalização, valorização e mudança. São três palavras que descrevem os últimos meses da Praça Roosevelt, no centro de São Paulo. As consequências da reforma de R$ 55 milhões, inaugurada há dois meses, incluem a saída de comerciantes do local, considerado um ponto cultural da cidade. Isso porque, com o renascimento da área até então degradada, veio também o interesse do mercado em reajustar os aluguéis.

Um dos responsáveis pela transformação da Roosevelt em polo cultural, a companhia de teatro Os Satyros também anunciou na semana passada que, em maio, trocará a praça por uma nova sede - provavelmente na região da cracolândia, também no centro. Ivam Cabral, um dos fundadores do grupo, culpa o aumento do aluguel pela mudança.

"A gente já sabia que isso aconteceria um dia, como foi em Nova York, Berlim e outras tantas cidades", diz. "A melhor forma de sair é não se 'vitimizar'. Não tem nada errado nesse processo, é apenas a lei do mais forte."

A especulação nos preços começou antes mesmo da inauguração da praça. Em janeiro, a HQMix Livraria, especializada em quadrinhos, foi o primeiro estabelecimento comercial a se mudar. Com o fim do contrato, o proprietário quis cobrar o triplo do aluguel, segundo os responsáveis pela loja. Sem condições de bancar o preço, a livraria foi transferida para um bairro que é conhecido justamente por ser mais nobre e caro: Higienópolis.

A dona da HQMix, Daniela Baptista, diz que o aluguel no novo ponto, ao lado da Praça Vilaboim, equivale a dois terços do valor que pagava na Roosevelt. "Passamos anos aguentando a obra, que acaba com movimento e traz sujeira e banditismo", conta, em referência aos transtornos da reforma da praça, que durou cinco anos e teria aumentado a criminalidade na região. "Quando ela fica pronta, somos expulsos."

Com maior área aberta ao público, a nova Roosevelt virou destino de skatistas e manifestantes de todas as vertentes. Por isso, também há moradores que não veem a hora de sair, como a corretora de imóveis Marlene Pereira Alves, de 54 anos. "Por que vou ficar em um lugar em que não consigo dormir?", pergunta.

Daniela, da HQMix, acredita que os altos preços vão, na verdade, trazer de volta a degradação para a Roosevelt, já que muitos comerciantes estão saindo da praça. "É impossível bombar um comércio noturno em uma praça. A Roosevelt virou o que tinha de virar: a praça dos skatistas, que não são consumidores e afastam o público."

Otimismo. Há quem discorde e aceite os novos preços de aluguel, já que acreditam no novo público. O salão de beleza Studio Camarim, por exemplo, abriu há um ano e quatro meses, já na expectativa da reinauguração da Roosevelt. O estabelecimento paga R$ 4,5 mil de aluguel - preço que já foi reajustado.

O bar Lekitsch foi inaugurado há um mês e meio. "Vimos a possibilidade de aliar o local à estrutura que já existia. Sabíamos que o aluguel era caro, mas apostamos na reforma", conta um dos donos, Sílvio do Carmo, de 43 anos. Inicialmente, a ideia era abrir o bar na Rua Augusta, mas eles queriam um público "diferente". "Acho que a Roosevelt está mudando para melhor."

Estratégia. Presidente da Ação Local, Jader Júnior afirma que essa troca de comerciantes e moradores já era esperada. Antes mesmo que a HQMix mudasse de endereço, a entidade se reuniu com proprietários para tentar evitar a saída em massa. "Os proprietários querem se aproveitar da especulação. Assim como tem pessoas querendo entrar por causa da revitalização. É uma questão de acomodar."

Para o presidente da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp), Luiz Paulo Pompeia, a reforma da Roosevelt é uma desculpa para o mercado aquecido. "O fato é que, independentemente da praça, o mercado está agitado."

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