Reerguida, Paraitinga espera por turistas

Reerguida, Paraitinga espera por turistas

Arrasada por enchente, cidade retoma calendário cultural com a Paixão de Cristo

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

28 Março 2010 | 00h00

O caipira Pôncio Pilatos, interpretado pelo contador de histórias Ditão Virgilio, especializado em sacis, anuncia sobre o coreto da Praça da Matriz, em São Luís do Paraitinga, a chegada do império da congada, do moçambique e do maracatu. São 21h de quarta-feira. Começam os ensaios para a retomada do calendário cultural da cidade, três meses depois das enchentes que quase tiraram Paraitinga do mapa.

Na frente dos escombros da Igreja da Matriz, que desabou em janeiro durante as chuvas, um grupo de 30 pessoas trabalha para representar a Paixão de Cristo na Sexta-Feira Santa, com 150 figurantes. O evento pretende mostrar que São Luís do Paraitinga já se reergueu e está pronta para receber turistas. "Não queremos a agitação dos antigos carnavais, que trazia dinheiro, mas também problemas. Queremos mergulhar na nossa identidade cultural. A tragédia nos mostrou que por isso somos tão queridos", diz o diretor de Turismo de São Luís do Paraitinga, Eduardo de Oliveira Coelho.

Franzino, o poeta e músico de modas de viola Marcelo Overá, que também toca na banda Tarancón, vai interpretar Jesus. Durante os ensaios, um homem solta na plateia que será preciso fabricar uma cruz de bambu para o Cristo magricelo aguentar o peso. Ditão, o Pôncio Pilatos com chapéu de palha, desce do palco para explicar à reportagem que Saci-Pererê até podia ser levado, mas não era malvado, recitando versos de cordel. "Saci era defensor da natureza. Somos a cidade com a maior quantidade de sacis no mundo", diz.

Na frente das ruínas de um casarão de 1824, que também desabou durante as cheias, vai ocorrer a crucificação. Era um dos prédios mais antigos da cidade, propriedade da família de Antônio Ebran Júnior, diretor da Paixão de Cristo, que já tentava retomar a encenação em Paraitinga havia oito anos. A enchente levou as autoridades a cederem.

Foi de Ebran a ideia de misturar a saga religiosa com hits musicais das missas católicas e ritmos da cultura local, tocados ao vivo. "Nossa tradição mistura o sagrado e o profano", explica. No ensaio, entre outras tarefas, o diretor precisa conter os ímpetos de Dhanija, de 5 anos, filha de "Jesus", que tenta impedir os romanos de chicotearem o pai.

Ressurreição. Ensaios à noite. De manhã, a partir das 7 horas, sons de marreta, furadeira, caminhão, homens pintando fachadas e pedreiros fazendo reboque nas paredes. A festeira São Luís do Paraitinga está ansiosa para o recomeço. Os turistas ainda não voltaram. Duas das três entradas da cidade estão fechadas, o que pode assustar. Basta pegar a rota alternativa. Paraitinga já está pronta para receber.

Cerca de 80% do comércio reabriu. No feriado, mil leitos em pousadas e hotéis e duas mil refeições diárias nos restaurantes aguardam os visitantes. Além da Paixão de Cristo, com congada, moçambique e maracatu, haverá a tradicional procissão do Senhor Morto, novenas, a Malhação de Judas, com cortejo do Bloco Pé na Cova, orquestra sinfônica e coro da Universidade de São Paulo (USP). A cidade também recebe uma etapa da Haka Expedition, competição com as melhores equipes nacionais de esporte radical. Mas o ponto alto do feriado serão as missas, rezadas no meio dos escombros da Igreja da Matriz.

A rápida reconstrução de São Luís do Paraitinga surpreendeu até os mais otimistas. Depois das chuvas, a cidade teve cerca de 600 das 2 mil casas afetadas pelas águas. Dos 425 prédios tombados, 86 foram destruídos ou ficaram abalados. O carisma de Paraitinga e a grande concentração de investimentos e apoio permitiram a reviravolta.

Solidariedade. Nenhum morador da cidade passou fome, já que as doações permitiam oferecer até 5 mil marmitex por dia, suficiente para metade da população, sem contar os estoques de leite, arroz, feijão e macarrão para os que podiam cozinhar. O Supermercado Cursino, um dos primeiros a reabrir, dobrou a média de vendas de iogurtes, biscoitos e carne. "Já o consumo de arroz e feijão caiu porque muitos ainda têm cestas básicas", diz João Rafael Cursino, proprietário do supermercado e integrante do bloco Os Estrambelhados.

As roupas, que lotam o ginásio municipal, começam a ser doadas para cidades vizinhas. Os comerciantes querem que os donativos cessem para a retomada da economia local. Não houve as temidas epidemias. Vieram remédios, médicos e enfermeiros. Alguns fornecedores deram créditos, perdoaram dívidas, permitindo que comerciantes se reerguessem aos poucos.

O empresário Michel Khayat Neto estima o prejuízo com as chuvas em R$ 320 mil, em equipamentos e estoques da Padaria Nossa Senhora da Aparecida. Em fevereiro, estava derrotado, quando um fornecedor da Marlboro veio bater com um cheque em sua porta. Khayat mandou o homem embora. Não tinha como pagar. Mas o fornecedor estava lá para perdoar a dívida de R$ 8 mil. "Ao todo, tive R$ 60 mil de dívida perdoada. Serei eternamente grato ao Depósito Michelin, Casa Sales, Moinho Correcta, Brahma. Ponha o nome deles no jornal", pede, emocionado.

Serão reconstruídas ainda as duas igrejas, está prevista a reforma do Mercado Municipal e prefeitura, vão ser erguidas uma nova escola de música e uma biblioteca. O Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) e o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Estadual (Condephaat) dão assessoria permanente aos donos de imóveis tombados. Os investimentos devem chegar a R$ 40 milhões. Um novo slogan, que circulou em fevereiro, se popularizou entre os moradores: "Vamos construir uma cidade ainda melhor".

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