SERGIO CASTRO/ESTADÃO
SERGIO CASTRO/ESTADÃO

‘Reduzir a demanda por água é a prioridade número 1’

Especialista em situações de estiagem, americana diz que é preciso controlar consumo e buscar fontes alternativas

Entrevista com

Paula Kehoe

Fabio Leite, O Estado de S. Paulo

23 Abril 2015 | 03h00


Diante de uma seca extrema provocada por falta de chuva e de neve há quatro anos seguidos, a diretora de Recursos Hídricos da Comissão de Utilidades Públicas da cidade de São Francisco, na Califórnia, Paula Kehoe, chegou ontem ao Brasil para dividir as experiências de enfrentamento da crise em uma região onde vivem cerca de 2,5 milhões de pessoas com autoridades brasileiras. Em entrevista ao Estado, ela diz que a prioridade número 1 é reduzir a demanda por água. 

Como o governo da Califórnia está lidando com a seca que já dura quatro anos?

Secas são muito desafiadoras e difíceis de serem geridas. Na Califórnia, o governador Jerry Brown, em janeiro de 2014, convocou todos os californianos a reduzir o consumo voluntariamente em 10%, principalmente na irrigação. Em 2015, a seca se agravou e a determinação é para reduzir o consumo de água urbana em 25%, pela primeira vez na história.

Tem sido suficiente?

Depende de onde você está na Califórnia. Em São Francisco, por exemplo, temos feito um trabalho com os clientes para que reduzam a quantidade de água que consomem em casa e em seus negócios. O consumo de água per capita é baixo se comparado com outras regiões do Estado, próximo de 45 galões (170 litros) por pessoa por dia. Assim, em São Francisco tivemos de reduzir em 8% o consumo de água, enquanto outras regiões foram obrigadas a reduzir o consumo em até 36%.

Em janeiro de 2014, o governador da Califórnia, Jerry Brown, decretou estado de emergência por causa da seca. Qual a importância desse ato? 

Quando o governador decretou o estado de emergência, mandou uma mensagem para todos os californianos, de que deveríamos refletir sobre o uso da água em casa e nos negócios. Que era um assunto sério. Em 2015, depois do pior ano já registrado em termos de precipitação de chuva e neve acumulada, apenas 5% do normal, o governador emitiu uma mensagem mais forte. 

Racionamento?

Nós não falamos sobre racionamento. Falamos sobre reduzir o consumo e não desligar a água ou não ter água dia sim, dia não. Antes, a redução era voluntária. Agora, há cobrança de multa para quem tem consumo excessivo de água.

Há uma sequência ideal de medidas a serem implementadas para enfrentar uma seca?

Em São Francisco nós tivemos uma longa seca entre 1987 e 1992, foram seis anos muito difíceis e nosso sistema de abastecimento foi muito afetado. Ali nós começamos um amplo programa de conservação de água, que inclui incentivos para troca de equipamentos sanitários mais econômicos, entre outras medidas, para ajudar os clientes a reduzirem o consumo de água. 

Reduzir a demanda é a nossa primeira prioridade. Além disso, São Francisco está comprometida com investimentos em infraestrutura. Em 2002, conseguimos aprovação do Congresso para um plano de US$ 3,8 bilhões, e hoje já executamos 80% do que estava previsto. Agora estamos diversificando nossas fontes, instalando poços no lado oeste da cidade, para misturar água subterrânea com água superficial, produzindo água reciclada para usos não nobres e autorizando prédios particulares, como hotéis, a instalar sistemas próprios de reúso de água. 

PAULA KEHOE É DIRETORA DE RECURSOS HÍDRICOS DA COMISSÃO DE UTILIDADES PÚBLICAS EM SÃO FRANCISCO, NA CALIFÓRNIA

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