Rede social move feira do rolo virtual em que se negocia 'carro só para rodar'

Ninguém é enganado entre os mais de 200 mil inscritos em páginas eletrônicas. Ou seja, o dono sabe que corre o risco de ter o automóvel apreendido, caso seja parado pela polícia, e não tem interesse em regularizar a situação do veículo

Marcelo Godoy, O Estado de São Paulo

26 Março 2017 | 10h01

SÃO PAULO - Carros com financiamento que não é pago ou com milhões em multas e impostos atrasados e até veículos roubados são negociados todos os dias em comunidades abertas e fechadas em redes sociais. Só no Facebook existem 42 delas, com mais de 255 mil inscritos, em que compradores e vendedores acertam preço ou a troca de veículos. 

Ninguém é enganado. Todos sabem o que estão fazendo. Esses veículos têm um nome: são os “carros só para rodar”. Ou seja, o dono sabe que corre o risco de ter o carro apreendido, caso seja parado pela polícia, e não tem interesse em regularizar a situação do veículo.

A análise dessas comunidades mostra que é um mercado que atrai cada vez mais pessoas – em quatro dias, só uma dessas comunidades ganhou 2 mil novos inscritos e atingiu 106,7 mil integrantes. No dia 7 de março, Rafael, de 26 anos, postou 13 fotos de um Audi A3 que ele queria vender por R$ 6,5 mil: “Só pra rodar, tenho papel puxado. Não respondo quanto tem de doc (multas, imposto e licenciamento)!! Ar gelado. Rolo só com volta em dinheiro”. Papel puxado é como nesse ramo se diz que o carro não tem queixa de roubo ou furto – o papel é o documento obtido com despachante, mostrando ao comprador que o carro é um problema da área cível e não criminal.

“Uso o A3 para trabalhar. O negócio é na base da confiança”, afirmou. As comunidades se transformaram em uma espécie de feira do rolo virtual. “Já me ofereceram TV, celulares. Até drone aparece. Mas eu estou interessado em outro carro ou em dinheiro”, contou. Para se proteger de quem oferece carro roubado como troca, Rafael diz pedir laudo. Seu Audi tem R$ 7 mil em multas e impostos atrasados. “Não compensa quitar. O risco é do comprador.”

Robson estava desempregado em 2015 quando começou a administrar uma dessas páginas. “Não fui eu que comecei ela. Fui moderador. Para mim nunca rendeu dinheiro.” Robson afirmou que deixou a comunidade depois que percebeu que tinha “muita bagunça”. “Tinha gente aproveitando o anonimato até para vender drogas.” Segundo ele, a maioria que participa da comunidade quer fazer rolo. A gente olhava a postagem e, quando via que era produto roubado, a gente bania. “A maioria dos participantes tinha menos de 30 anos.”

No dia 12, Mereira anunciou um HB20 por R$ 14 mil. “Carro só para rodar. Sem papo furado, só chame se tiver dinheiro para comprar.” O anúncio alertava que se tratava de um “NP” ou “Ninguém Paga”. Os NPs são carros financiados cujo dono deixou de pagar e resolve vendê-lo. Quem compra sabe que não vai poder regularizá-lo. “Muitas vezes, o carro é financiado no nome de um laranja. O golpe é contra o banco. Já descobrimos NP blindado sendo usado por ladrões de caixas eletrônicos. Se a polícia para o carro, a documentação é quente e antes que o banco se queixe – o que demora –, não temos o que fazer”, disse o delegado Emydio Machado Neto, diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic).

O Estado procurou a Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef), mas a entidade não se manifestou. O Facebook informou, por meio de sua assessoria, que retira do ar toda comunidade ou página de usuário quando constata o conteúdo postado é ligado a uma atividade ilícita. “Contamos com a nossa comunidade para denunciar”, informou a empresa. 

Grave. Não há, diz o Departamento Estadual de Trânsito (Detran), “impedimentos legais para compra e venda de veículos com débitos”. Crime só existiria no caso de roubo, furto ou fraude contra financeiras.

“A legislação, no entanto, obriga o comprador a realizar a transferência do veículo para seu nome em até 30 dias. Para fazer isso, ele terá de quitar os débitos. Descumprir o prazo é infração grave”, disse o Detran. Além disso, para fazer o licenciamento, o dono do veículo precisa quitar os débitos. “Todo veículo não licenciado está sujeito a ser apreendido e removido ao pátio. E o dono recebe multa de R$ 293,47.” PM e Polícia Rodoviária fazem a fiscalização. 

O receio de perder o carro não impede que o negócio siga a todo vapor. Biel, de 27 anos, postou no dia 13 em um dos grupos as fotos de um Siena “só para rodar”. Ele diz usar o comércio desse tipo de carro como “complemento de renda”. “Hoje, cerca de 20% dos carros rodando em São Paulo estão assim.” O número dado por Biel pode não estar muito longe da realidade. De fato, segundo o Detran, só no ano passado 6,4 milhões de carros que deviam ser licenciados não o foram no Estado. Biel pediu R$ 7 mil pelo carro e, em algumas horas, conseguiu vendê-lo pelo WhatsApp. “Usou o carro, cansou dele? É só trocar. É rolo, mas é legal.” 

Silva, que vendia um C3 no mesmo dia escreveu: “Atenção: carro só pra rodar. Por favor, não façam perguntas idiotas. Não vou responder.”

 

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Marcelo Godoy, O Estado de São Paulo

26 Março 2017 | 15h00

As comunidades de compra e venda mantidas em redes sociais se transformaram em feiras do rolo virtual e espaço aberto para a oferta de golpes e fraudes. Há quem anuncie a venda de remédios sem receita, a retirada de pontos da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), instalação ilegal de TV a cabo, pagamento de boletos com 50% de desconto e venda de celulares sem nota fiscal.

No dia 3 de março, por exemplo, Aparecida postou em um grupo de “carros só para rodar” um mensagem dizendo ser despachante e anunciando que retirava pontos da CNH. Um interessado perguntou a ela se conseguia o Documento Único de Transferência (DUT) de veículos sem pagar multas – o que só seria possível mediante fraude. Aparecida deixou o número de seu WhatsApp e orientou os clientes a procurá-la “inbox”.

Em outra postagem, no dia seguinte, Danilo oferecia “pagamento online de boletos com 50% de descontos”. Danilo afirmava que era capaz de pagar IPVA, multas, conta de luz, de água, financiamentos e consórcios, cartões de crédito e boletos bancários sempre com desconto. O Estado o procurou, mas ele não quis dar entrevista. Seu post era ilustrado por dois boletos de um banco. “Existem ladrões vendendo mercadorias e muitos golpistas agindo em sites e em comunidades da internet”, afirma o delegado Carlos Eduardo Carvalho, da Divisão de Investigações Gerais do Departamento Estadual de Investigações Criminais.

No mesmo dia 4, Emerson anunciou no grupo Feira do Rolo (SP) que instalava “TV a cabo grade completa sem mensalidade, com premier tudo liberado”. Os clientes deviam procurá-lo pelo WhatsApp. O “serviço” de gatonet custava R$ 800 a vista ou com entrada de R$ 260 mais três parcelas no cartão de R$ 230. Na foto que ilustrava o post havia um aparelho de TV acoplado ao suposto desbloqueador de sinal. Emerson não quis dar entrevista. 

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Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

26 Março 2017 | 10h17

O diretor do Departamento de Investigações Criminais (Deic), delegado Emydio Machado Neto, defendeu a alteração da legislação sobre os carros “NP”, o “Ninguém Paga”. Para ele, é preciso que a polícia tenha a possibilidade de agir mais rapidamente para recuperar os veículos – atualmente ela tem de esperar decisão judicial para poder aprender o veículo.

“Esse instrumento está sendo usado pelo crime”, afirmou. Segundo ele, golpistas usam documentos falsos ou laranjas para comprar o veículo financiado. “Pagam uma parcela e depois vendem. Quando o banco vai atrás do inadimplente, descobre a farsa.” Não existem números sobre o tamanho do golpe, pois ele se esconde dentro da taxa de inadimplência das instituições financeiras das montadoras – esta, cresceu de 3,9% em 2012 para 4,6% em 2016.

Para o delegado Valter Abreu, titular da Divisão de Roubo e Furto de Veículos e Cargas (Divercar) da Polícia Civil de São Paulo, além dos carros financiados com documentos falsos, os bandidos também vendem carros roubados com documentos e laudos falsos.

“A financeira não tem como saber se é vítima de estelionato ou se está diante de um inadimplente. Para recuperar o veículo, ela entra com um pedido de busca e apreensão na Justiça, na área cível. Se não acha, ela leva de um a dois anos para procurar a polícia.”

Estelionato. Além do NP e dos veículos roubados e com licenciamento atrasado em razão de débitos, os carros “só para rodar” podem ter ainda uma outra fonte: o golpe da revenda de veículos. “Há lojas que vendem carros deixados em consignação, não pagam quem deixou lá e não passam o documento para quem comprou”, afirmou Abreu. Foi o que aconteceu em uma loja do Bom Retiro que fez mais de uma centena de vítimas em janeiro. A polícia pediu a prisão preventiva do comerciante, que até agora está em liberdade. 

Cadastrado. Para quem quer comprar carro usado e não pretende se envolver em rolo, a saída é comprar carros de comerciantes estabelecidos e que sejam cadastradas em bancos que financiam os veículos, passar o veículo por uma perícia de sua confiança, jamais comprar um automóvel de terceiro e desconfiar dos carros colocados à venda por um preço bem abaixo do mercado. Esses são alguns conselhos da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto) e do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran-SP) para quem vai comprar um carro e não quer ter problemas. "Existem cerca de 48 mil lojas de carros no País e cerca de 22 mil delas estão cadastradas em bancos, o que funciona como uma garantia paras o consumidor", afirmou o presidente da Fenauto, Idílio dos Santos, de 71 anos. 

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