Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

Rede municipal de SP vai reprovar em 5 das 9 séries

Após 21 anos, reforma da educação altera divisão de ciclos, além de criar recuperação de férias e dependência nas disciplinas

Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2013 | 02h51

A Prefeitura de São Paulo lança hoje a proposta de reforma da educação municipal, que altera a divisão de ciclos, permitindo reprovação em cinco séries - não mais em duas, como é hoje -, além de criar a recuperação de alunos nas férias e a possibilidade de se carregar dependência. A nova diretriz será implementada na rede a partir do ano que vem.

Essa é a mais profunda transformação no modelo educacional da cidade desde que o sistema de progressão continuada foi instituído, há 21 anos, na gestão petista de Luiza Erundina. Até o dia 15 de setembro, o programa batizado como Mais Educação São Paulo ficará aberto para consulta pública.

As principais mudanças estão no ensino fundamental, do 1.º ao 9.º ano. Serão atingidos com as alterações nessa fase 452 mil alunos. A rede vai abandonar a divisão de dois ciclos, com repetência prevista no 5.º e no 9.º anos, e criará três ciclos: os chamados ciclos de Alfabetização (do 1.º ao 3.º ano), Interdisciplinar (do 4.º ao 6.º ano) e Autoral (do 7.º ao 9.º ano). A reprovação passa a ser prevista no fim dos dois primeiros ciclos e em todos os anos do último ciclo, que concentra 41% dos alunos do fundamental.

Segundo o prefeito Fernando Haddad (PT), a ideia não é represar alunos. "Quando se prevê que, dos nove anos, em cinco pode ter retenção, quer dizer que estamos resgatando marcos para dar referências para que professor e estudante saibam o que precisa ser aprendido e assimilado", diz Haddad.

Para evitar aumento de reprovações, a Prefeitura pretende intensificar o esquema de recuperação. O reforço no contraturno, hoje usado de forma pontual em algumas escolas, será institucionalizado. Também será criada a chance de reforço nas férias. Nos 7.º e 8.º anos, os alunos poderão carregar uma disciplina como dependência.

Currículo. Apesar de adotar as diretrizes do Pacto Nacional de Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), lançado pelo governo federal para os três primeiros anos, a Prefeitura promete não abandonar o Ler e Escrever, modelo adotado pela gestão passada. "O Ler e Escrever não é contraditório com a nova diretriz, mas ele não é suficiente. Os resultados estão aí", diz o secretário de Educação, Cesar Callegari. Em 2011, 38% dos alunos do 4.º ano da rede não estavam plenamente alfabetizados.

A nova proposta cria uma estratégia de transição para os últimos anos. No 6.º, haverá a manutenção de um professor generalista, que dará aulas de português e matemática - mantendo assim um elo com os anos anteriores, em que apenas um professor dá o conteúdo. Já nos últimos três anos, os alunos terão de fazer um trabalho de conclusão de ciclo, com projeto interdisciplinar.

A diretora da ONG Todos Pela Educação, Priscila Cruz, elogiou a criação do ciclo intermediário e o resgate do boletim, lição de casa e conceitos de 0 a 10, "que facilitam a participação da família".

A consultora em Educação Ilona Becskeházy defende que a Prefeitura detalhe na consulta pública as explicações técnicas para as propostas. "O Brasil tem uma das maiores taxas de retenção de alunos. Aumentar a possibilidade de reprovação, a não ser que haja justificativa, contraria a evolução de nossa política educacional", avalia.

O Sinpeem, principal sindicato da categoria, divulgou nota na qual afirma que os professores não foram ouvidos. / COLABOROU VICTOR VIEIRA

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