Reality show mostra vida de quem usa drogas e vira polêmica

'Intervenção' aborda vício de oito pessoas; especialistas discordam de método utilizado no programa

O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2012 | 03h04

No dia em que Ministério Público Estadual (MPE), governo e Polícia Militar discutem os rumos do tratamento de crack em São Paulo, a TV começa a exibir o primeiro reality show brasileiro com usuários de crack e de outras drogas. Especialistas acreditam que o programa pode ser prejudicial e reforçar estigmas.

Intervenção, que começa a ser exibido hoje no canal pago A&E a partir das 23 horas, mostra a trajetória desses usuários e oferece tratamento para os participantes em clínicas particulares. O formato foi importado da televisão americana, onde o programa está na 11.ª temporada e, em 2009, ganhou um Emmy de melhor reality show.

A série começa contando a história de Vanessa, de 32 anos, com quatro filhos, que levou uma vida trágica por causa do vício em crack. Além dela, o programa mostra a história de mais sete viciados, com idade entre 22 e 37 anos, de diferentes cidades e classes sociais.

São oito capítulos gravados há quatro meses. Todos acabam contando como o personagem cuja história é narrada está nos dias de hoje. Vanessa, por exemplo, pediu para trabalhar em uma clínica. Continua limpa.

Segundo os produtores do programa, outros seis continuam longe das drogas desde que passaram pelas intervenções médicas oferecidas pelo reality show. Ontem, eles ficaram sabendo que um dos participantes, Marcelo, de 37 anos, voltou a usar drogas. "Acho que o programa ajuda no debate e incentiva o tratamento. Foi isso que aconteceu nos EUA. A participação no programa foi um incentivo e boa parte dos participantes deixou o vício", diz a produtora executiva da série, Krishna Mahon.

Críticas. Médicos e educadores que atuam em programas com usuários de drogas, no entanto, enxergam o formato com ceticismo. A psiquiatra Ana Cecília Petta Roselli Marques, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), desconfia da emissora de TV que afirma que, nos EUA, mais de 70% dos participantes abandonaram o vício. "Nenhuma clínica do mundo alcança essas taxas de sucesso."

Para Ana Cecília, a exposição do paciente é grave e contribui para "aumentar o estigma e distorcer conceitos sobre o tratamento das drogas". A psiquiatra também desconfia de que a série possa trazer benefícios para o debate da saúde pública. "Ela precisaria estar dentro de um projeto de prevenção, mas é algo isolado. Há o impacto inicial e depois as pessoas esquecem."

A educadora Joice dos Santos, de uma organização que atua na cracolândia com crianças em situação de rua, também desconfia do reality show. "Para ter eficácia, é preciso haver acompanhamento da trajetória individual. Além disso, seria importante que houvesse cobrança de políticas públicas. Esses são os principais gargalos para quem tem problemas com as drogas."

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