Tasso Marcelo/AE
Tasso Marcelo/AE

Realengo: para vencer trauma, até mãe volta às aulas

Crianças se recusam a ir à Tasso da Silveira; alguns não querem mais nem sair de casa, ''porque tem muita gente maluca no mundo''

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2011 | 00h00

Na segunda-feira, a Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, retomará as aulas, após o maior massacre em uma escola brasileira. Mas muitos jovens não querem voltar ao colégio e mães decidiram até se matricular na escola para tentar superar o trauma dos filhos.

Pais, professores e psicólogos tiveram ontem, durante uma reunião para preparar o retorno das atividades, uma amostra da difícil tarefa de convencer os alunos a retomar a rotina. Muitos do turno da manhã, que presenciaram a morte de 12 colegas há uma semana, estão traumatizados e não querem voltar ao colégio.

A escola marcou o retorno dos alunos do turno da tarde para segunda-feira, às 13 horas. O turno da manhã voltará às aulas no dia seguinte. A Guarda Municipal vai manter um agente na porta do colégio durante os três turnos - e um carro da Polícia Militar já está de guarda no local.

O medo das crianças alterou a rotina de várias famílias. A costureira Rosângela da Costa Cruz, de 46 anos, até se matriculou na escola e voltará a estudar, a pedido da filha, Lorrainy Cruz, de 15 anos. A garota não aceita ir à escola sozinha, depois que viu a melhor amiga, Laryssa, ser assassinada pelo atirador Wellington Menezes de Oliveira.

Lorena Rocha, de 14 anos, não considera a hipótese de pisar na escola novamente. Suas primas, as gêmeas Bianca e Brenda, foram baleadas pelo atirador. A primeira morreu, e a segunda ficou ferida. A mãe de Lorena já conseguiu uma bolsa de estudos para a sobrevivente, em um colégio particular da região.

"Aqui não tem clima. Uma sobrinha minha está morta e a outra levou dois tiros nas mãos e tem uma bala alojada na nuca. Não posso pedir para minha filha voltar", disse Perla Rocha, de 34 anos. Elisabeth Gomes do Nascimento, de 32 anos, esteve ontem no colégio para ouvir do psicólogo o que fazer com o filho Matheus, de 10. "Ele só dorme com a luz acesa e toma banho com uma vassoura escorando a porta, para não fechar. Ele diz que não quer sair, porque tem muita gente maluca no mundo."

Feridos. A secretaria estadual da Saúde informou ontem que cinco crianças feridas na tragédia de Realengo permanecem internadas. Quatro ainda estão em CTIs de hospitais da rede estadual. J.O.S., de 14 anos, passa bem, lúcido e orientado, no CTI pediátrico do Hospital Estadual Alberto Torres; L.V.S.F., de 13, respira sozinho, com quadro estável em observação permanente no pós-operatório da neurocirurgia, no CTI pediátrico do Hospital Estadual Adão Pereira Nunes; T.T.M., de 13, está estável, lúcida e orientada, no CTI pediátrico do mesmo hospital.

E.C.A.A., de 14 anos, apresenta estado regular, respira sem ajuda de aparelhos, está lúcido, internado no Centro de Terapia Intensiva do Hospital Estadual Albert Schweitzer, e D.D.V., de 12 anos, continua evoluindo bem, em leito de enfermaria no mesmo hospital.

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