Reajuste de tarifa vai aumentar procura por Bilhete Único Mensal

Fernando Haddad (PT) admitiu que promessa de campanha, que ainda não havia deslanchado, vai ficar mais vantajosa

Rafael Italiani, O Estado de S. Paulo

30 Dezembro 2014 | 23h30

SÃO PAULO - Uma das principais promessas de campanha do prefeito Fernando Haddad (PT) deve finalmente deslanchar com a decisão impopular dos governos estadual e municipal de aumentar as tarifas de ônibus, trem e metrô a partir de 6 de janeiro. Isso porque o valor dos bilhetes temporais (Diário, Semanal e Mensal) permanecerão congelados, ou seja, com cálculos que levam em conta os atuais valores das tarifas únicas e de integração entre os modais: R$ 3 e R$ 4,65, respectivamente.

No caso do Bilhete Único Mensal integrado (transporte sobre trilhos e ônibus), que vai permanecer custando R$ 230 por mês para o passageiro fazer quantas viagens quiser no período, o benefício compensará para quem fizer mais que 21 integrações por mês após o reajuste. Esse modelo foi lançado pela Prefeitura há pouco mais de um ano. 

Em média, um trabalhador realiza entre 22 e 23 integrações mensais só para ir e voltar do serviço, nos dias úteis, sem poder usar o cartão do Vale-Transporte para outros deslocamentos como, por exemplo, lazer. Essas viagens, no bilhete comum, custam, hoje, R$ 213,9 (levando em conta 23 integrações mensais). Com o reajuste, o valor vai saltar para R$ 250,70 considerando-se o aumento da tarifa para R$ 3,50 e da integração para R$ 5,45.

O próprio prefeito Haddad admitiu que só agora, após um ano, os bilhetes mensais ficarão mais interessantes. "Agora é muito vantajoso o Bilhete Único Mensal, que não teve o seu valor alterado. Você, que tem o vale-transporte ou compra, não compre mais o bilhete unitário, porque ele é que teve o seu preço majorado. Todos os outros bilhetes não tiveram aumento", disse o prefeito, em entrevista ao SPTV, da Rede Globo, nesta terça-feira, 30. 

A Prefeitura não informou em quanto deve aumentar o uso do Bilhete Único Mensal. Segundo a Secretaria Municipal de Transportes, se fossem cobrados todos os custos do bolso do usuário, a tarifa hoje seria de R$ 4,76. A pasta ainda afirmou que "as gratuidades são absolutamente alinhadas com a necessidade de que a cidade provenha seus cidadãos de plena mobilidade". Reforçou também que o reajuste da tarifa foi de 16,67% - menor que a inflação entre janeiro de 2011 e dezembro de 2014 (27%).

Vantagens e desvantagens. Para os especialistas em Transportes procurados pela reportagem, o aumento da tarifa pode ser uma vantagem tanto para passageiros quanto para a Prefeitura. "Vai ficar mais barato, como se o aumento da passagem não tivesse sido aplicado", afirmou Sérgio Ejzenberg, engenheiro e mestre em Transportes pela Universidade de São Paulo (USP). No entanto, ele disse que o benefício do passageiro pode deixar o custo do transporte público mais caro para a Prefeitura. "Esse bilhete tinha um custo estimado de R$ 400 milhões quando o prefeito lançou essa medida. Só não teve impacto porque não teve adesão. O subsídio pode ter um aumento", afirmou.

O especialista disse que o passageiro que vai pagar R$ 3,50 nas tarifas unitárias do ônibus não reclamaria do transporte caso ele fosse eficiente. "O sistema está desorganizado porque a Secretaria Municipal de Transporte não tem competência de reorganizá-lo", afirmou. Segundo ele, os intervalos das partidas são longos, não há ônibus suficientes e nem a quantidade necessária de corredores para os veículos serem mais rápidos. A Prefeitura não comentou.

Para Horácio Augusto Figueira, também mestre em Transportes pela USP, os passageiros ainda vão se beneficiar pelo congelamento dos preços dos bilhetes mensais. Ele destaca, no entanto, que para o serviço melhorar, a Prefeitura deveria pagar para as empresas de ônibus os quilômetros rodados. "É para quebrar o paradigma de que no horário de pico os ônibus são sempre lotados. Com isso, as empresas podem aumentar a quantidade de ônibus nos horários de maior movimento. Mas elas não vão fazer isso de graça", afirmou. 

Ele disse ainda que a administração municipal deve pensar em outras formas de arrecadação para não aumentar as passagens de ônibus. "A publicidade pode ser usada e também o aumento do subsídio. Na esfera federal, poderia haver um aumento de R$ 0,50 no preço dos combustíveis. Esse aumento ajudaria a pagar o transporte público", afirmou.

Resposta. A Secretaria Municipal de Transportes afirmou que tem feito esforços para reformular e melhorar o sistema de transporte viário da cidade. Outras fontes de financiamento estão sempre em estudo e que parte importante dos custos estão relacionados a políticas públicas de mobilidade. Cabe aos poderes legislativos, acrescentou a secretaria, debater fontes perenes de recursos para os serviços de transporte. 

Após auditoria externa, informou a administração municipal, estão sendo definidas novas condições na contratação de serviços de transporte, que serão licitados em 2015. A pasta destacou a ampliação das faixas e corredores de ônibus, a reorganização de linhas e expansão do atendimento durante a madrugada. 

Quanto ao subsídio, é projetada redução para o ano que vem. A secretaria prevê "aumento de arrecadação decorrente de uma parcela de usuários dos outros tipos de crédito"./COLABOROU CAIO DO VALLE

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