'Reagir foi meu último recurso. Eu ia morrer'

Além de reclamar de ser tratado como bandido, comerciante está há dias sem abrir sua loja por medo de vingança

Entrevista com

WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2012 | 03h02

O comerciante Jeferson Fiuza de Moraes, de 28 anos, se viu na semana passada em meio a uma polêmica envolvendo legítima defesa ou reação excessiva a um assalto. Dois criminosos - incluindo um adolescente - invadiram sua loja de informática na Cidade Dutra, zona sul, e anunciaram o assalto. Moraes, que faz curso de tiro, alega que os criminosos afirmavam a todo momento que matariam ele e uma funcionária. Como tinha uma arma no banheiro onde foi mantido refém, decidiu usá-la e matou a dupla. Acabou preso por homicídio doloso (quando há intenção) e passou um dia na cadeia. Segundo o delegado, houve excesso na reação. Um ladrão morreu com 5 tiros (um na cabeça), o outro com 3.

Como se sentiu ao ser preso depois do assalto? Eu fiquei indignado pelo que aconteceu, pela inversão de valores. Um cidadão, em legítima defesa, foi tratado como criminoso. Não vou julgar se foi correto ou incorreto, mas não foi o mais adequado, com certeza, por parte do delegado.

Como você ficou na cadeia? Como chego a uma cadeia e falo que sou aquele que trocou tiro e matou dois bandidos? Dividi cela com um estuprador, um pedófilo e um receptador. Para eu não morrer, o carcereiro montou uma história diferente, como se eu tivesse sido preso por pensão alimentícia. Pela segunda vez, temi perder a vida. A primeira foi durante o assalto. O bom é que tudo se resolveu, consegui meu alvará de soltura e estou na rua, apesar de o delegado ter me tratado como criminoso.

Como foi na delegacia?

Aconteceram os fatos, chamei a polícia, socorri os bandidos. Cheguei ao DP e meu advogado foi falar com o delegado. Ele perguntou: "Doutor, meu cliente vai ser preso?" Ele disse: "Vai, para mim seu cliente é um criminoso, ele atirou com intenção de matar". Ele disse que não está ali para ouvir ninguém, mas para prender e quem me ouviria seria o juiz. Sou uma pessoa com bons antecedentes criminais, nunca tive problema nenhum com a Justiça, tenho a arma registrada, agi em legítima defesa, o cara deu três tiros contra mim, graças a Deus não me acertou, eu atirei contra ele, infelizmente, ele veio a morrer e eu é que sou a ameaça à sociedade?

O delegado disse que o senhor exagerou na reação, que houve excesso doloso. O que diz sobre isso? Queria saber como ele sabe que agi em excesso se a perícia nem mesmo saiu. Ele está atropelando a perícia. E outra: o cara está dando tiros em mim, vou ficar contando quantos tiros eu dei nele? O bandido não contou quantos tiros deu em mim. Acho estranho o delegado falar em excesso de tiros. Será que se o bandido tivesse dado seis tiros em mim seria condenado por excesso? Eu era a vítima e virei o vilão.

No que o juiz se baseou para lhe conceder a liberdade? Ainda não vi, mas acho que se baseou no óbvio, né? Agi em legítima defesa, não ofereço risco, tenho residência fixa, me apresentei.

O senhor já tinha sido assaltado outras vezes? Reagiu? Já estive em situações em que não era a minha vida ou a do bandido. Chegou com a arma para me assaltar e entreguei tudo, sem problema. Só não queria que fizesse mal à minha vida. Fui assaltado mais de 15 vezes e nunca tinha reagido. No comércio, foram 7, 8 vezes. Nunca reagi.

Por que reagiu desta vez?  Desta vez foi diferente, muito tenso. Reagir foi meu último recurso, porque eu ia morrer.

Faria novamente? Se me ameaçar a todo instante, disser que vou morrer, botar arma na minha cara, colocar o terror e eu tiver a oportunidade de estar com a arma e me defender para não morrer, faria a mesma coisa. Torceria, da mesma forma que torci, para ele não falecer.

Teme a reação dos colegas dos bandidos?  Temo, tanto que não estou trabalhando. Não sei se vai aparecer alguém, se vai passar batido. Não estou disposto a pagar para ver. A loja está fechada até eu decidir o que vou fazer da minha vida.

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