Rave de deus leva 8 mil ao Playcenter

Evento começou na noite de sábado e só foi acabar com o nascer do sol de domingo

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2010 | 00h00

Madrugada de ontem, 14ºC, olha o programão. Rave religiosa Summer Night, no Play Center, com ingressos a R$ 37,00. Nove bandas de rock sobem ao palco e cantam em nome de Jesus para um público de cerca de 8 mil pessoas. Antes, às 22h, tem missa com um padre que canta. Os fiéis dançam. Todas as atrações do parque estão funcionando; o palco fica ao lado da "Casa dos Horrores".

"Muita paz no coração, galera!", grita um guitarrista gordinho, depois de dar um pulo com as pernas abertas. Ouvir preces dissertadas no meio daquela "quebradeira" é como assistir a um show de rock português. Parece que o sotaque não combina com a música.

Bíblia na mão, o vocalista do grupo Adoração e Vida, Walmir Alencar, de 43 anos, diz que não conseguiu um tempo para se preparar antes de subir ao palco. "Eu sei mais ou menos a direção que Deus colocou no meu coração. Quando você tem intimidade com Ele, fica mais fácil." O Adoração e Vida é um dos grupos mais aguardados da noite. Em suas letras, Alencar costuma colocar o predicado antes do verbo, no que parece ser uma tentativa de soar, digamos, arcaico. Seu hit atual, por exemplo, é Hoje Livre Sou. Nele, há versos como "escravo eu fui" e "uma presença forte em mim eu posso sentir". "Eu vou pela melodia. O Chico Buarque e o Djavan também fazem essa inversão", diz ele, afinal, do alto de mais de 500 mil discos vendidos.

Casado? "Não." Solteiro? "Não. Consagrado." Alencar explica que resolveu "viver inteiramente pela obra".

DJ Calvário. A ex-produtora de TV e atual pleiteante a uma vaga de apresentadora de programa religioso Danielly Domingos, de 28 anos, se oferece para acompanhar a reportagem pelas atrações. Na "tenda eletrônica", DJ Calvário, de 26 anos, chega com sua parafernália para animar a pista, que está meio devagar. Há seis anos ele toca black music e hip hop na Cristoteca Aliança da Misericórdia, em Parada de Taipas.

Calvário vai render DJ Robson, que, olhos fechados, braços semierguidos apontados para frente, canta em ritmo trance:"Ó, Maria, mãe do intenso; mostra seu filho Jesus nosso Senhor." Apesar da agressividade do som, das luzes feéricas e dos passos abruptos, os abordados tem algo de naif.

DJ Leo, do grupo Electro Cristo, conta, para dimensionar sua projeção, que remixou Humano Demais, do padre Fábio de Mello. Mas diz que não vive disso. Quando não há dinheiro para pagá-lo, ele toca de graça, por Deus. "Trabalho no departamento de Marketing das Paulinas", explica. A Paulinas é a editora católica que promove o evento.

Duas garotas ali ao lado se desdobram girando com os braços as "swing flags" (bandeiras dançantes). "Na nossa sociedade, as pessoas usam drogas e bebidas para se soltar. Isso não acontece nas baladas gospel e eletrônicas que a gente promove", diz a atriz Klara Marthins, de 22 anos.

Por algum motivo, quem participa da organização de uma balada onde não se servem bebidas nem se consomem drogas precisa ficar repetindo que é possível até casar com alguém que se conhece ali. O apresentador das bandas grita: "Gente! As baladas são um ambiente de permissividade, de drogas, de álcool. No entanto, são 3h45 e nós estamos aqui, nos divertindo, sem nada disso!!!"

De fato, não é fácil encontrar fiéis se amassando pelos cantos da Summer Night. Em compensação, o evento admite uma certa promiscuidade religiosa. Estão ali católicos, evangélicos, batistas e "quem mais quiser vir", informa Klara, que produz eventos em parceria com igrejas como a Renascer em Cristo. "Mas não temos vínculo com a pastora Sônia (Hernandez, que foi presa por desembarcar em Miami com uma dinheirama não declarada)", apressa-se Klara, antes que suas boas intenções vão todas passear na jaula da Macaca Monga, atração, diga-se de passagem, muito procurada.

De volta ao fundo do palco, lá está Marilia Gabriela pulando freneticamente, enquanto o grupo Apocalipse 16 canta um rap político religioso que mistura "brancos", "negros", "injustiça", "cruel" e "Jesus". "Peraí, peraí", diz Gabi, de 14 anos, incomunicável enquanto o show não termina e ela não tira uma foto com o vocalista.

No camarim, Alencar, do Adoração e Vida, continua. "A boca do ser humano não foi feita para beijar tantas outras. Só uma." A conclusão vem depois de ele contar que, em uma apresentação de sua banda no Nordeste, durante o carnaval, duas meninas de um acampamento vizinho vieram se refugiar com eles, dizendo que houve lá um campeonato de beijos e agora quase todo mundo estava com herpes. "A Aids o que é?"

É melhor não falar em pedofilia.

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