Rãs, sapos e pererecas sobrevivem à metrópole

Pesquisa mostra que existem 91anfíbios em São Paulo; capital tem espécies raríssimas

GIOVANA GIRARDI, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2013 | 02h03

Pode ser difícil abstrair do ruído do trânsito na Avenida Paulista, região central de São Paulo, no meio da hora do rush. Mas quem passa na frente do Parque Trianon no início de uma noite quente pode ter uma surpresa se conseguir fazê-lo. Além dos motores e buzinas de carros e ônibus, aparece um apito curto, agudo, em pulsos. Um barulhento "pi-pi-pi" emitido por milhares de indivíduos entocados no meio do parque.

Para ouvidos destreinados, até podem parecem grilos, mas os cantores da Paulista são um grande grupo de rãzinhas-piadeiras. Representante do grupo animal mais ameaçado do planeta por ser extremamente sensível a alterações ambientais - os anfíbios -, a espécie é uma amostra de uma surpreendente variedade de sapos, rãs e pererecas que vivem na capital.

Levantamento recente concluído pelo pesquisador Leo Malagoli, em seu mestrado na Universidade Estadual Paulista (Unesp), elevou para 91 o número de espécies desses animais já registradas em algum momento em São Paulo. O Rio de Janeiro, para comparação, tem 69.

Nem todas, porém, ainda estão pela cidade - muitas já desapareceram no processo de urbanização -, mas se acredita que mais de 80 estão pulando aqui e ali. Apesar de seus mais de 11 milhões de habitantes, dos rios poluídos, dos mananciais ocupados irregularmente e das poucas áreas verdes, a megalópole ainda mantém refúgios para esses delicados animais.

"Os resultados foram muito interessantes. Mostraram que há animais endêmicos - que só ocorrem no local - e algumas espécies ainda não descritas pela ciência. Isso revela o nível absurdo de desconhecimento que temos sobre nossa fauna", comenta o biólogo Célio Haddad, professor da Unesp Rio Claro e orientador de Malagoli. "Imagine quantas já foram ou estão sendo extintas sem nem sequer sabermos que existem."

Na maioria dos casos, os sapinhos foram vistos ou ouvidos nos remanescentes florestais das zonas norte (como a Serra da Cantareira) e sul, onde fica o Núcleo Curucutu do Parque da Serra do Mar, local onde Malagoli concentrou seu mestrado e onde também foi encontrado o maior número de espécies - das 91, 21 estão só lá.

Mas há também algumas super resistentes, que vivem até mesmo nas Marginais dos Rios Pinheiros e Tietê. "Uma ou outra aguentou viver lá", conta Malagoli. O quadro ao lado dá uma ideia da diversidade paulistana.

Mata nativa. O pesquisador explica que para existir sapo é preciso ter alguma vegetação nativa. "No Parque Villa Lobos, por exemplo, não se vai encontrar, porque lá foi tudo construído. Não tem como o sapo chegar ali para colonizar."

Situação diferente da encontrada no Trianon, onde restou uma ilha de Mata Atlântica. "A rãzinha-piadeira só está lá porque o parque não foi desmatado. Mas ela está completamente isolada. E não sabemos quanto isso pode contribuir para que em algum tempo desapareça."

O herpetólogo (especialista em anfíbios) conta que a primeira vez que ouviu a piadeira no local mal pôde acreditar. Ele andava rapidamente pela Paulista, logo após um temporal de fim de verão, quando ouviu seu canto. Parou, escutou melhor. "Não podia ser. Eu estava atrasado para um compromisso, mas dei a volta em todo o quarteirão do parque para ter certeza. É uma rãzinha de dois centímetros no meio de São Paulo!"

Alguns anos depois, tomando cerveja com amigos em um bar nas proximidades, ouviu novamente a cantoria dos sapinhos. "Pedi licença, peguei o microfone, gravador, termômetro para medir a temperatura local e fui gravar seu canto."

Outras descobertas importantes foram feitas no Curucutu. Ali, Malagoli descobriu quatro espécies novas para a ciência e algumas curiosidades que só uma cidade do tamanho de São Paulo pode oferecer.

Apesar de a maior parte do Município estar no planalto, a cerca de 800 metros acima do nível do mar, há um pedaço no meio do núcleo que se encontra a apenas 60 metros de altitude. "Achamos ali a perereca-do-litoral. Existem bichos da baixada litorânea no Município de São Paulo", diz.

Fica a pergunta se animais localizados no extremo sul da capital, a mais de 50 km do centro, contam mesmo como paulistanos. Para Malagoli, sim, se considerarmos que a última área urbana da cidade, o bairro de Engenheiro Marsilac, está em linha reta a somente 10 km do núcleo. E alerta: "O Curucutu é parte da Serra do Mar, uma unidade de conservação de proteção integral. Mas há um movimento de ocupações irregulares naquela direção. Se não houver um planejamento urbanístico, daqui a 40 anos podem não mais existir esses remanescentes".

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