'Rambla' em favela do Rio vira ponto de crack

Obra do PAC de R$ 136 mi, elevação da linha férrea em Manguinhos não resolveu degradação do entorno dos trilhos

ANTONIO PITA / RIO , O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2012 | 03h02

Anunciada em 2007 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como a maior obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em Manguinhos, favela carioca com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) abaixo do Gabão, na África, a elevação da linha férrea que cortava as comunidades foi recebida com euforia. Cinco anos depois, finalmente inaugurada, a obra já não causa a mesma comoção: em três meses, o local se tornou alvo de roubos e ponto de concentração de usuários de crack.

Além disso, a esperada integração entre as 11 comunidades antes separadas pelos trilhos não aconteceu - um muro ainda separa a área recém-urbanizada da favela. Concebida para ser a versão carioca das "ramblas" de Barcelona, na Espanha - amplos passeios públicos cercado por restaurantes e cafés -, a elevação consumiu cerca de R$ 160 milhões. A proposta era oferecer um espaço de integração aos 60 mil moradores da favela.

Sob os trilhos elevados, entretanto, a maior parte dos frequentadores são usuários de crack. De dia, são cerca de 30 circulando nas "ramblas" ou entre colchões, sofás, lonas, cobertores e lixo espalhados ao lado do passeio, no local onde ficavam os antigos trilhos. Mulheres e adolescentes se prostituem e alguns usuários roubam materiais da obra, como caixas de eletricidade e tampas de bueiros para financiar o vício.

"É um sofrimento ver o local assim", diz o vice-governador Luís Fernando Pezão. Para ele, o tráfico "fortalecido" é a razão para as dificuldades no local. "Fazer a obra foi uma dificuldade. Estamos fazendo uma política social, mas só com a paz na região poderemos consolidar as ações." Apesar do discurso, a única viatura responsável pela ronda no local fica estacionada no ponto oposto à cracolândia, a dois quilômetros de distância. Mesmo com os roubos, o local não tem plano de segurança ou vigilância da guarda municipal.

Em 17 meses, a polícia e a Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) já encaminhou 500 usuários de crack para atendimento. "Não adianta. No dia seguinte, todos voltam", afirma a comerciante Elizabeth Silva. "Ainda vai levar um tempo para a região ser um local civilizado. Não é só uma obra que transforma uma comunidade, mas uma política pública social", diz o arquiteto e idealizador das "ramblas", Jorge Jaregui.

Esperança. O governo espera que uma nova fase de obras melhore a situação. A perspectiva é que o muro seja derrubado em um ano para dar lugar a um parque linear de 28 mil m². Uma ciclovia será construída na área hoje ocupada pelos usuários de drogas. Também serão feitas quadras e equipamentos esportivos, além de urbanização de algumas vias da região. A nova etapa está orçada em R$ 36 milhões.

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