TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Rainha estrangeira e rei de bateria se destacam no carnaval de SP

Angolana, Carmen Mouro vai guiar o coração da Pérola Negra; já Daniel Manzioni, da Tatuapé, celebra uma década na avenida

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2016 | 07h00

Carmen Mouro e Daniel Manzioni. Ela da Pérola Negra. Ele, Acadêmicos do Tatuapé. O que há de comum é que eles serão destaques na passarela do samba neste ano. Angolana, Carmen será a primeira estrangeira a guiar a bateria de uma agremiação no carnaval paulistano. Manzioni está completando dez anos de avenida e já se consagrou como o único homem que tem o cargo de rei de bateria.

Foi em 2006 que o personal trainer Daniel Manzioni, de 40 anos, recebeu o título que já causou preconceito e hoje é respeitado pela escola da zona leste. “Foi um presidente que entrou em contato depois que viu um desfile meu na Acadêmicos do Tucuruvi. Ele perguntou se eu queria ter um título inovador e foi uma surpresa para mim.”

O Anhembi o recebeu em 2007. “Era um misto de preconceito com pessoas que, de imediato, adoravam a ideia. Muitas pessoas criticaram, queriam saber se eu sambava, se eu viria nu, se eu faria jus ao cargo. Os primeiros anos foram mais complicados.”

Atual presidente da agremiação, Eduardo Santos diz que o novo cargo não foi imediatamente aceito por todos da comunidade. “No começo, a gente estranhou e achou que não era uma coisa legal, porque ninguém tinha (um rei). Ficamos com receio de como seria a repercussão disso. Mas, pela personalidade e postura dele, foi muito bacana. Ele é muito querido por toda a comunidade.” A função dele é, ao lado da rainha, conduzir o “coração da escola”. “Toda rainha tem de ter um rei. Nosso papel é receber a comunidade, conversar com todos, é ter uma relação com o público.”

E a responsabilidade não é pequena. No carnaval passado, os 240 ritmistas da bateria “Qualidade Especial”, comandada pelo Mestre Higor, conseguiram nota máxima dos quatro jurados que avaliaram o quesito. “Tenho certeza absoluta de que a bateria vai continuar fazendo o sucesso dos anos anteriores. Ela tem sido muito bem avaliada pelos julgadores e pelo público presente”, diz Santos. No ano passado, a escola ficou em 12º lugar entre as 14 agremiações que desfilam na elite do samba paulistano.

O ano de 2013 foi importante para o personal trainer, que se viu, pela primeira vez, desfilando no Grupo Especial do carnaval paulistano. “Foi uma luta, porque ser pioneiro em um assunto exige muito mais do que em um título que já existe. Mas houve o reconhecimento depois de tanto tempo de espera.”

Apesar da grande divulgação na época de sua função, o cargo não virou uma tendência entre as agremiações. “As escolas mantiveram o padrão e não quiseram mexer. Antes, a corte vinha com quatro pessoas. Hoje, tem escola que vem só com a rainha. Além disso, algumas pessoas não sabem usar o título de rei com respeito à comunidade e aos ritmistas.” Neste ano, a Acadêmicos do Tatuapé vai homenagear a agremiação carioca Beija-Flor de Nilópolis.

Estreia. A empresária Carmen Mouro, de 38 anos, conta que demorou a entender a importância de ser uma rainha de bateria. "É um momento mágico. 'Wonderful', como costumo dizer. Eu me sinto privilegiada. Comecei a perceber melhor depois, os brasileiros dão muito valor e, agora, eu entendo melhor. Cada vez que vou para um ensaio, a comunicação é fantástica. Vejo qual é a minha missão."

A missão foi um convite da Pérola Negra, que já buscava na África a mulher que viria à frente de sua bateria.

"Falamos sobre o enredo, que vai abordar a dança, os 100 anos do samba e entraria algo da África e da Angola. Tivemos a indicação da nossa ex-rainha de bateria. A Carmen veio para casar com o tema", explica o diretor de harmonia Valmir Teles.

Teles conta que a escolha não foi arbitrária. "Chamamos as meninas da corte e elas aceitaram, porque estava dentro da nossa proposta."

Carmen já conhecia o Brasil e viveu durante nove anos no País. O contato com o carnaval também não é novidade. "Morei em Salvador e sou casada com um carioca. Adorava os carnavais fora de época. O carnaval é um espetáculo, uma demonstração de cultura e de história."

Mãe de três filhos, ela já trabalhou como modelo e hoje comanda uma empresa na área de estética. Além dos cuidados com o corpo e a alimentação, que já fazem parte de sua rotina, Carmen também fez aulas de samba. "Comecei a fazer em outubro, logo depois da coroação. Fiz para aperfeiçoar o samba de avenida, de rainha, porque sambamos em Angola. É um samba com pé no chão, mais parecido com um partido alto", explica.

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