Epitácio Pessoa/AE
Epitácio Pessoa/AE

Radar 'dedo-duro' faz dobrar nº de carros apreendidos em SP

E se multiplicam as queixas de motoristas contra valores cobrados por operadoras oficiais para remover e guardar veículos

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

16 Maio 2011 | 00h00

ARAÇARIGUAMA - O número de carros apreendidos nas rodovias estaduais paulistas mais que dobrou desde que a Polícia Rodoviária Estadual passou a usar radares que denunciam veículos com licenciamento atrasado. Em 24 rodovias, 42 pontos de sensores inteligentes estão operando desde novembro.

A média mensal de carros apreendidos subiu de 4.490 antes dos radares para 9.750 depois, segundo o Departamento de Estradas de Rodagem (DER). No primeiro mês de pleno funcionamento, em dezembro, foram apreendidos 10.793 veículos. Em janeiro, foram 10.113, ante 4.409 de janeiro de 2010.

Os 33 pátios das empresas credenciadas estão abarrotados. Por falta de espaço, a maioria fica a céu aberto. Apenas cinco empresas têm autorização para operar os guinchos e a guarda dos veículos. Os preços cobrados - fixados em tabela do próprio DER - assustam motoristas.

Para o carro ser retirado do local da apreensão e levado ao pátio mais próximo, o proprietário desembolsa R$ 150,24 pelo reboque, mais R$ 4,89 por km rodado. O pátio ainda cobra diária de R$ 39,08, mesmo que o veículo fique apenas uma hora. Para caminhões e ônibus, os valores quase triplicam. Há ainda a multa por infração de trânsito.

Apreensões. O Estado acompanhou blitz no km 45 da Rodovia Castelo Branco. Pela placa, o policial acessa o banco de dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) e da Secretaria da Fazenda e, em décimos de segundos, sabe se o veículo tem pendências. Em seguida, aponta aos colegas carros que devem ser parados. Na maioria dos casos, o dono não pagou IPVA e multas ou não renovou o licenciamento. O motorista encosta, entrega documentos e nem tem tempo de argumentar. "Seu carro está apreendido por falta de documentação", avisa o policial.

O guincho da credenciada já está à espera. O dono pode apenas retirar objetos pessoais. O guarda preenche um papel, entrega ao motorista e já se ocupa com o radar. Mais um automóvel é parado. No veículo, estão um casal e duas crianças. O policial oferece água. O homem usa o celular na tentativa de pedir ajuda ao irmão. "A viagem já era, venha nos buscar", pede. O pátio de Araçariguama fica a apenas três quilômetros, mas a estrada é de terra. Mais de mil veículos estão ao relento, cobertos pela poeira da estrada, usada também por caminhões de uma mineradora.

O depósito ocupa clareira numa mata densa com nascentes. Pilhas de pneus velhos com água podem servir de criadouro do mosquito da dengue. Quando radares estão em ação, o local se agita. Guinchos levantam poeira, deixam carro e fazem meia volta. Minutos depois, chegam com outro veículo. O pátio funciona das 9h às 17h, com intervalo para almoço, das 12h às 13h.

O comerciante Walter Nastri, de São Roque, foi parado no km 33 da Raposo, mas o carro foi guinchado para o pátio da Castelo. O veículo é novo e estava com licenciamento em dia, mas o documento atrasou no correio. "Falei aos policiais que eles poderiam consultar a base de dados, mas nem quiseram me ouvir." Nastri queria liberar o veículo no mesmo dia, mas o pátio estava fechado. No dia seguinte, ele pagou R$ 415. "Quem tem um negócio como esse está montado numa mina de ouro."

Abuso. A gerente comercial Maria da Glória Carvalho tirou férias e esqueceu de licenciar o carro. Na Semana Santa, foi parada na Raposo. Os policiais não informaram valores, nem aonde o carro seria levado. "Até descobrir onde estava, passaram dias." Ele ficou no pátio de 21 de abril a 5 de maio e a conta foi de R$ 961. Como chegou ao meio-dia, teve de esperar funcionários voltarem do almoço.

O empresário Paulo Rogério Diniz Costa teve a picape apreendida em Itapecerica da Serra, mas o guincho cruzou toda a Grande São Paulo para deixar o veículo em Araçariguama. "Não entendi porque eles têm de trazer para um local tão distante, se existem pátios mais próximos." A portaria do DER diz que a operadora pode cobrar no máximo por 50 km rodados.

 

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linkPreços do DER estão acima dos de mercado

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