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Fernando Reinach
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Rabo de aranha

Alpinistas e aranhas saltadoras são cuidadosos. Quando vão pular um precipício, se amarram a uma corda. Se o salto der errado, a corda previne a queda. Essa era a ilusão em que viviam os cientistas. Agora descobriram que a corda de seda usada pelas aranhas tem uma função muito mais interessante. Ela permite que a aranha, tal qual Bruce Lee, aterrisse após o salto pronta para o ataque.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2013 | 02h11

Existem milhares de espécies de aranhas saltadoras do grupo Salticids. Elas vivem em todos os continentes, preferencialmente nas florestas. São exímias caçadoras. Seus quatro pares de olhos localizados na região anterior da cabeça propiciam um dos melhores sistemas visuais conhecidos. Gostam de caçar de dia. Localizam a presa, se aproximam lentamente e saltam em direção à presa. Seu salto é rápido, longo e preciso. Rápido porque não utiliza músculos para estender as pernas posteriores que impulsionam o corpo. As pernas são sofisticados sistemas hidráulicos. Fluido é injetado sob pressão em uma espécie de pistão que move a perna e ela decola a uma velocidade de aproximadamente 1 metro por segundo (3,6 km/h). Longo porque alcança 20 vezes o comprimento do seu corpo (seria como se nós saltássemos 30 ou 40 metros). Preciso porque aterrissa praticamente em cima da presa, que é agarrada 10 milésimos de segundo após a aterrissagem. A vítima não tem chance.

Faz muitos anos que os cientistas observaram que essas aranhas, antes de iniciar o salto, se abaixam e, tocando a parte de trás do abdome no solo, prendem no local a ponta de um fio de seda (o material que as aranhas usam para produzir as teias). Durante o salto, à medida em que a aranha avança, o fio vai alongando. Quando a aranha pousa, ainda está ligada pelo fio ao local de onde partiu. Esse fio foi denominado pelos cientistas de "corda de segurança", pois se acreditava que ele permitia à aranha voltar ao ponto de origem se errasse o salto. Mas havia um problema: as aranhas muito raramente erram o salto, e algumas vezes não produzem a "corda de segurança".

Recentemente, um cientista observou que, nos pulos sem corda, o pouso da aranha não era tão suave e, em um caso, ela parecia dar um salto mortal. Isso bastou para incentivar os cientistas a estudar em detalhe o papel dessa "corda de segurança" durante o salto.

O estudo foi feito com 38 aranhas da espécie Hasarius adansoni. Elas foram coletadas na floresta e mantidas em cativeiro por algumas semanas para se adaptar. Em um aquário de vidro, os cientistas construíram duas plataformas separadas por um "abismo" de 7,5 centímetros. Uma das plataformas era mais alta (18 centímetros do solo) e tinha uma rampa por onde a aranha podia subir. A outra estava 3,5 centímetros abaixo. Para filmar as aranhas saltando, eles usaram uma câmara capaz de registrar 1.000 quadros por segundo. Aí colocavam as aranhas e ficavam esperando elas decidirem subir e dar o salto. Parece que elas gostam de saltar, pois não foi necessário colocar uma presa na plataforma de aterrissagem. Centenas de saltos foram filmados e os filmes, analisados cuidadosamente. Das 38 aranhas, 22 sempre usavam a corda de segurança, as outras muitas vezes pulavam sem a corda. Foi comparando os filmes dos saltos com e sem o equipamento que os cientistas puderam entender a função da corda.

Quando as aranhas pulavam com a corda, elas sempre pousavam sobre todas as patas simultaneamente, exatamente na horizontal. Nos pulos sem corda, elas geralmente caíam sobre a parte de trás do corpo e algumas vezes de lado. Em umas poucas vezes, as aranhas sem corda caíam de boca e quase davam uma cambalhota para a frente. Nos saltos com corda, a corda fica tensa durante todo o movimento, pois é produzida na medida em que a aranha se movimenta, em perfeita sincronia. Usando o peso das aranhas (medido com uma balança após cada salto), a velocidade da aranha durante cada etapa do voo, a velocidade de aterrissagem e o ângulo do tórax e do abdome da aranha em relação aos planos horizontal e vertical, os cientistas puderam calcular com precisão as forças que agem sobre o corpo dela durante o voo, tanto na presença de corda quanto na sua ausência.

O que eles concluíram é que a aranha, quando usa a corda, regula a força com que "segura" a corda, o que permite ao animal usar a corda como uma espécie de apoio. Isso permite que ela oriente o corpo durante o salto, garantindo a posição correta durante o voo. Já nos saltos sem corda, as aranhas ficam à mercê do impulso inicial e, apesar de moverem as pernas e o abdome, não conseguem sempre manter o corpo orientado durante o salto.

O resultado final é que, quando a corda está presente, a aranha pousa sobre as patas e leva menos de 10 milissegundos para estar em pé e alerta. Já nos saltos sem corda, a aterrissagem é mais conturbada e elas levam no mínimo 50 milissegundos para se colocar de pé e em posição de alerta.

A conclusão é que a função do cabo de seda é orientar o corpo durante o salto (uma função exercida pelo rabo nos vertebrados saltadores), garantindo um movimento perfeito em todas as tentativas. Provavelmente os 40 milissegundos perdidos antes de agarrar a presa podem ser a diferença entre o sucesso e o fracasso, a diferença em uma boa refeição ou mais um dia passando fome. O cabo de seda é mais uma arma desses predadores, junto com as mandíbulas, os olhos aguçados, o veneno, as garras e a perna hidráulica. A corda de seda é o rabo das aranhas. *Mais informações: More than a safety line: Jump-stabilizing silk of salticids. J.R. Soc. Interface vol 10: 20130572 2013

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