R$ 855 milhões em obras. E a mesma miséria

Jéssica Mariano da Conceição tem 2 anos e mora num barraco de madeira debruçado sobre um valão na comunidade das Casinhas. Ela faz parte de um grupo de moradores que vive alheio e não desfruta de nenhum benefício promovido pelos mais de R$ 1 bilhão em obras de urbanização realizadas na área nos últimos quatro anos.

O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2011 | 03h03

A menina não sabe o que é CV (Comando Vermelho), UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) e PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Mas conhece o perigo. "Bicho, o bicho", diz Jéssica quando sua mãe, Josiane, de 24 anos, reclama que o local onde moram é visitado regularmente por "ratazanas do tamanho de gatos gordos".

A situação de Jéssica mostra que parte dos moradores ainda vive em absoluta miséria, esquecida pelo poder público. O complexo recebeu mais de R$ 855 milhões em obras de urbanização dos governos federal e do Rio nos últimos quatro anos. A Prefeitura entrou com R$ 170 milhões. Iniciativas que constavam do projeto básico inicial do PAC e antigas demandas da comunidade, no entanto, foram excluídas da primeira fase das obras.

A implementação do sistema de saneamento universal só volta à planilha em uma eventual segunda fase de investimentos. O mesmo vale para a criação do Parque Ecológico da Serra da Misericórdia, que separa os Complexos do Alemão e da Penha.

Também precisam de aporte de mais recursos a conclusão da construção de acessos no interior das favelas e a ampliação e unificação dos 2,6 quilômetros das Ruas Joaquim de Queiroz e Canitar. Isso cria uma ligação direta entre os bairros de Inhaúma e Ramos, que passariam a contar com linhas de ônibus e melhor acessibilidade. Apenas 300 metros de urbanização das vias foram concluídos até agora. "Daria para passar ambulâncias e caminhões de lixo", diz Alan Pinheiro, coordenador do Instituto Raízes em Movimento, que atua há dez anos no complexo. "É um bom exemplo de como foi equivocada a aplicação de recursos."

Cerca de 33% dos recursos do PAC no Complexo do Alemão foram destinados à construção do teleférico - segundo Empresa de Obras Públicas do Rio (Emop). Aberto ao público em julho, o sistema conta com cinco estações, uma conexão com a estação ferroviária de Bonsucesso e 152 cabines. O serviço tem capacidade para transportar 35 mil pessoas por dia. Atualmente leva 9 mil - segundo a concessionária que o administra. Apesar de ainda não ter caído no gosto da maior parte dos moradores, o sistema vai incluindo o conjunto de favelas no roteiro turístico da cidade.

Obras. A Secretaria de Estado de Obras e a Empresa de Obras Públicas do Rio (Emop) informaram que a maior parte das intervenções sob responsabilidade do governo já foi concluída. Nos próximos meses, a administração estadual promete entregar mais 192 unidades habitacionais, escolas, clínica e "Praça do Conhecimento", além de concluir a pavimentação de ruas e a expansão da rede de esgoto. /A.J.

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