R$ 62 milhões esquecidos na Paulista

Galerias debaixo da avenida estão abandonadas desde a década de 1970

Érica Saboya, Felipe Tau e Flávia Maia

11 Dezembro 2010 | 09h16

Subterrâneo no centro é marcado por mofo, goteiras e estalactites.

 

SÃO PAULO - Quem tenta estacionar ou procura um imóvel na região da Avenida Paulista sabe que o espaço ali é negociado a preço de ouro por causa da escassez de áreas disponíveis. Por isso é difícil imaginar que abaixo dos milhares de pés que transitam diariamente por aquelas calçadas existam 22 galerias abandonadas.

 

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Mapeamento realizado pela antiga Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), atual SP Urbanismo, mostra que esses espaços no subsolo variam de 26 a 2.440 m², somando cerca de 13 mil m². Como o preço do metro quadrado de depósitos subterrâneos na região fica entre R$ 3 mil e R$ 5.300, de acordo com avaliação da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), a Paulista guarda nessas galerias um patrimônio que chegaria a R$ 62 milhões, se as áreas estivessem em bom estado. Os espaços estão deteriorados e precisam de reformas.

 

Hoje essas galerias são públicas, mas nenhum departamento da Prefeitura soube informar quem é responsável por elas. Os dados sobre a existência ou não de projetos de uso do local são controversos e a assessoria de imprensa da Prefeitura evita comentar o assunto, alegando que nada pode ser feito ali.

 

Resquício do projeto Nova Paulista, de 1967, as galerias seriam usadas como parte de um túnel a ser construído sob a avenida. Na época, a via foi expandida em 10 metros de cada lado, passando de 28 para 48 metros de largura. Com o recuo dos prédios, as entradas e as instalações subterrâneas - a maioria garagens - foram desapropriadas, dando origem a bolsões. Eles ficaram abandonados após a suspensão das obras, em 1973.

 

Só em 2004, por iniciativa da Associação Paulista Viva, o uso do espaço voltou a ser discutido com a Prefeitura. No entanto, o comitê técnico formado não seguiu adiante, por causa da dificuldade de achar solução viável.

 

O investimento necessário para o uso dos espaços é um dos principais motivos das divergências quanto ao destino a ser dado a eles. Os 37 anos de descaso levaram à deterioração. Para se descer à galeria do Conjunto Nacional, por exemplo, foi preciso auxílio de brigadistas.

 

Aberta a tampa do bueiro na esquina da Rua Augusta, o que se vê é um buraco escuro e a pouca luz que entra ilumina uma escada de cerca de 4 metros. À medida que se caminha, a luz da lanterna mostra restos de construção, desenhos nas paredes e estalactites e estalagmites que se formaram com as infiltrações. O cheiro de mofo, o som das goteiras e a sensação de tremor quando o metrô passa completam o cenário de abandono.

 

Impasse

 

Para a recuperação, a diretora de Paisagem Urbana da SP Urbanismo, Regina Monteiro, é a favor de parcerias com a iniciativa privada. Segundo ela, as áreas poderiam ser transformadas em lojas, estacionamentos ou galerias de arte. "A gente cede o espaço, eles fazem a reforma e, em troca, podem expor sua marca." A Paulista Viva tem proposta semelhante. "Até consultei a Secretaria de Turismo de São Paulo para propor um espaço de convenções debaixo do Conjunto Nacional", diz a diretora Marly Lemos.

 

Porém, a viabilidade da solução é questionada pelos empresários. A gerente-geral do Conjunto Nacional, Vilma Peramezza, afirma não ter interesse na área. "Isso é um abacaxi. Por que eu vou gastar dinheiro em algo que já foi nosso?" A síndica se queixa de que a galeria dá gastos para o condomínio, com reparos de infiltração e limpeza do local. "É mais barato aterrar."

 

Para o arquiteto responsável pelo Nova Paulista, Nadir Mezerani, o projeto ainda é tecnicamente viável e as áreas só devem ser usadas se ele for retomado em sua totalidade. O presidente da Construtora Figueiredo Ferraz, João Antonio del Nero, que tocava a obra, também defende a retomada da proposta.

 

Segundo a Paulista Viva, das 22 galerias, pelo menos 9 estão ocupadas irregularmente por prédios e lojas. A SP Urbanismo não descarta ocupações ilegais. "Quando a Prefeitura fizer um novo cadastro, vai achar até o que Deus duvida", diz Regina.

 

CRONOLOGIA

Entenda o Nova Paulista

 

1965

Alargamento

A Prefeitura propõe alargar a Avenida Paulista, rebaixando a pista e eliminando os cruzamentos para facilitar o tráfego de veículos

 

1967

Túnel e bulevares

O projeto sofre mudanças. É adotada a versão do arquiteto Nadir Mezerani, em que o leito dos automóveis seria enterrado em um túnel, abrindo espaço para bulevares acima

 

1973

Interrupção

As obras, que haviam começado no fim da década de 1960, na gestão do prefeito Faria Lima, são interrompidas quando o prefeito Figueiredo Ferraz, presidente de uma das empresas do consórcio, é exonerado

 

1974

Conclusão

Após o novo prefeito, Miguel Colasuonno, descartar a execução do projeto original, apenas o alargamento da avenida é concluído

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