Imagem Jairo Bouer
Colunista
Jairo Bouer
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Questão de gênero

Como é duro quando um ídolo da sua juventude emite uma opinião absurda! Na última semana, Chrissie Hynde, vocalista dos Pretenders, uma das bandas que mais fizeram sentido para mim nos anos 1980, disse que ela foi culpada por ter sido estuprada aos 21 anos em Ohio (EUA). A cantora, que lançou esse ano a autobiografia Reckless (Descuidada, Imprudente), declarou ao jornal inglês Sunday Times que, por ter uma atitude provocante, acabou estimulando alguém descontrolado. Por outro lado, ela afirma que, se andasse discretamente, o culpado teria sido o homem que a atacou. Entidades que defendem vítimas de violência sexual no Reino Unido condenaram a declaração da roqueira.

Jairo Bouer, O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2015 | 03h00

Não faz o menor sentido culpar as mulheres pelas atitudes de violência sexual praticadas pelos agressores. Não é uma roupa, uma atitude ou o simples fato de estar andando desacompanhada que justifica qualquer forma de ataque. Na boca de uma mulher, a frase parece ainda mais descabida. Mas, infelizmente, no Brasil e em boa parte do mundo reflete uma posição mais comum do que se imagina, principalmente nos setores mais conservadores da sociedade.

É uma pena que ainda hoje homens e mulheres perseverem nesse discurso sexista, machista, que insiste em desqualificar a mulher e “aliviar” o lado do homem em uma situação de agressão sexual, em um jogo de poder que é sempre desigual. Uma das causas da manutenção desse discurso, em pleno século 21 é, sem dúvida, a falta da discussão da questão de gênero em campos em que ela deveria estar presente, como em casa e na escola.

Muitas vezes são as próprias mães, educadas em uma sociedade patriarcal, que não atende a igualdades e direitos, que mantêm esse desequilíbrio ao criar filhos e filhas de maneiras absolutamente distintas. Mesmo sem querer, perpetuam muitas das dificuldades que mulheres e homens vão enfrentar.

A escola, que deveria ser o espaço para que essas questões fossem trabalhadas de forma contínua, desconstruindo preconceitos, para mudar essa triste realidade, está deixando essa discussão de lado. Na última semana, por exemplo, por pressão de setores conservadores, os vereadores de São Paulo barraram a inclusão de metas de promoção e o debate de igualdade de gênero nas escolas da rede municipal de educação. A discussão foi publicada no caderno Estadão.edu. 

Para alguns grupos religiosos, haveria por trás dessa discussão uma tentativa de impor a ideologia de gênero. Para eles, discutir gênero na escola aumenta as chances de alguém se tornar homossexual, algo que até hoje nenhum estudo sério e científico demonstrou. 

Já ocupei esse espaço em outras oportunidades para dizer que discutir gênero e orientação sexual não faz ninguém se tornar menos homem ou menos mulher. Por outro lado, pode fazer com que os jovens se tornem homens e mulheres muito melhores, que vão sofrer menos em sua vida e nos seus relacionamentos. Garante mais justiça e direitos e pode promover uma geração mais saudável.

O Ministério da Educação e a Câmara dos Deputados divulgaram notas, nas últimas semanas, em que defendem a inclusão de temas como gênero e orientação sexual nos planos de ensino e políticas educacionais. Sem incluir esse debate, a escola se afasta de um papel central, que é a formação global dos seus alunos. Ela corre o risco de perpetuar injustiças, preconceitos e discriminações contra mulheres e minorias sexuais.

Na última semana, estive em Washington, em uma reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), para trabalhar na elaboração de um programa interamericano de prevenção da violência e de criminalidade. E é lógico que a questão do gênero e dos direitos humanos entrou como um dos pilares centrais dessa discussão.

Tenho certeza de que você, pai ou mãe, não gostaria que sua filha tivesse que ouvir, no futuro, atrocidades como as que disse Chrissie Hynde, nem que ela fosse vítima de qualquer forma de violência ou assédio moral. Aposto, também, que não iria querer ver seu filho como alguém que compactua ou participa desse tipo de agressão. Que tal repensar, então, as conversas e papéis dentro de casa e se preocupar com a forma com a qual a escola deles está se ocupando dessa discussão?

Mais conteúdo sobre:
Jairo BouerO Estado de S.Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.