Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

'Quero ficar, agora mais do que nunca', diz professor que salvou 50 alunos em Suzano

Agnaldo Xavier é um dos professores mais atuantes da escola Raul Brasil; no momento do ataque, falava sobre a rifa que organiza todos os anos para pagar a formatura do ensino médio

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2019 | 05h00

SÃO PAULO - "Pouco se falou desse herói. Salvou muitas crianças que corriam desesperadas, puxando elas para dentro da sala de aula, fazendo barricadas com mesas na porta da sala e vigiando para ver se os assassinados vinham na direção deles. Parabéns, professor Agnaldo."

O texto foi publicado em rede social por um ex-aluno da Escola Estadual Professor Raul Brasil, alvo do ataque a tiros que deixou 10 mortos há uma semana, em Suzano. Na postagem, o rapaz menciona a atuação do professor Agnaldo Xavier, de 47 anos, que ajudou a esconder cerca de 60 estudantes durante o massacre.

Professor de Matemática há 10 anos e do Raul Brasil há cinco, Xavier é um dos funcionários que ajudaram a minimizar os impactos do ataque à escola. Naquela manhã, ele distribuía o material da rifa que sempre ajuda a organizar para a formatura dos alunos do ensino médio. Falava com alguns adolescentes quando ouviu os estampidos.

"Pensei que era bombinha, mas aí eu fui na porta. Um dos alunos corria, dizendo que era tiro e que mataram a 'tia'. Abri a porta e comecei a gritar para entrar todo mundo. Tinha muita gente correndo para lá e para cá, sem direção, todos apavorados", lembra.

"Graças a Deus mantive a calma. Falei 'todos no chão, sentados'. Foi difícil conter as meninas, que gritavam 'eu vou morrer'. Fechei a porta, mas deixei uma abertura para eu ficar olhando a ação deles, não queria ser pego de surpresa. Não sabia quantos tinha. Só vi dois, mas não sabia se tinha mais", relembra.

Na sala de número 17, ele estava com dois alunos que conhecia do terceiro ano. Pediu para um deles vigiar em um canto de uma janela, no fundo da sala. "Falei para ele: 'Fica aqui. Se ver alguém pulando, grita."

O professor observou a ação dos atiradores por uma fresta na porta. "Vi quando viraram à direita e foram em direção ao centro de línguas. Tinha um tiro atrás do outro. Para mim, era até metralhadora."

"Creio que qualquer um no meu lugar faria o mesmo. Se eles viessem de encontro comigo, não iria deixar entrarem na sala. Não sei o que aconteceria, poderia nem estar aqui. O primeiro pensamento rondando foi nas crianças. Eles têm 15, 16 anos, mas estavam com aqueles olhinhos assustados, gritando. Uns gritando pelos pais, que iriam morrer. Uma menina ligou para o pai. Falei que ela estava bem e pedi, pelo amor de Deus, para ele ligar para a polícia. Graças a Deus, a polícia chegou rápido."

Atuante, professor organiza de simulados e rifa de formatura

Xavier coordena ou participa da organização de grande parte dos eventos e atividades da escola, como formatura, festa junina, passeios e um simulado que copia até o fechamento dos portões da prova do Enem. "Isso está no sangue, gosto de fazer, de me envolver com alunos."

O professor se mostra orgulhoso pela Raul Brasil ser uma das melhores posicionadas na região nos exames de avaliação do ensino. "A minha vida se resume a tentar dar um incentivo para esses jovens, um futuro melhor. Não estou falando de boca pra fora", conta.

Na terça-feira, 19, ele foi à escola ajudar no acolhimento dos alunos, enquanto faltou ao próprio acolhimento (no dia anterior) para ficar com a filha - ainda assustada para voltar às aulas, embora estude em outra instituição. 

"Hoje (terça) teve muitos pais me abraçando e chorando, alunos gratificados. Deus me colocou no lugar certo, na hora certa", conta. O retorno é parecido com o que diz receber todo início de ano letivo. "Fevereiro começam as aulas e os pais vêm agradecer que conseguir bolsa pelo Enem para entrar na faculdade."

"Vim de uma família muito humilde. Acho uma injustiça as coisas acontecerem só para quem tem poder aquisitivo melhor. Temos muitos jovens com uma capacidade enorme e que não tem como pagar por uma faculdade."

Filho de pais baianos, Xavier tem 11 irmãos, todos com formação superior. "Me espelho muito no que passei na minha infância, na minha adolescência, para dar uma força e transformar a vida desses alunos de uma maneira diferente. Tem de dar um carinho, uma atenção. Se fala que não entendeu, o professor não pode dar as costas."

"A matemática é complexa, e o aluno precisa quebrar aquela barreira do medo. Me aproximo o máximo para terem liberdade comigo, procuro deixar a aula bem à vontade. Faço uma explicação geral, depois explico de novo e depois vou de cadeira em cadeira."

Ao Estado, Xavier pediu para ressaltar que os professores também precisam de acompanhamento psicológico. "Precisa parabenizar o corpo docente, e as merendeiras também. Todos os professores ficaram chocados. Eu estou legal, mas, de vez e quando, tenho uma crise de choro." 

Sobre a permanência no Raul Brasil, diz não ter dúvidas, "agora mais do que nunca". "É difícil. Só temos de encarar. Temos que pensar neles. Se para a gente já foi difícil, imagina para essas crianças", diz. 

"Não pretendia sair. Agora temos que colocar a escola no lugar dela de novo. É uma escola referência. O Raul Brasil não é bairrista, tem aluno de Mogi (das Cruzes), de Ferraz (de Vasconcelos), de bairros próximos de Suzano", conta. "Segundo o secretário (estadual da Educação), vão transformar a escola em escola modelo, estão trabalhando nisso. Creio que vai melhorar. Se não melhor, a gente vai reivindicar."

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