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Fernando Reinach
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Queria ser um morcego

Estou sentado em uma poltrona no meu quarto. Levanto, ando pelo corredor, viro à direita, dou alguns passos. Estou na frente da geladeira. Cheguei automaticamente, afinal faz anos que moro no mesmo apartamento e já percorri esse caminho centenas de vezes. Meu cérebro construiu um mapa mental do apartamento. Aliás possuímos muitos desses mapas. Meu favorito é o que me permite caminhar do escritório à minha casa, escrevendo mentalmente esta coluna, sem errar o percurso ou ser atropelado.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

08 Junho 2013 | 02h06

Grande parte desses mapas mentais, que são atualizados constantemente, residem em nosso hipocampo, pequena região do cérebro localizada quase no centro da cabeça. Nessa região, foram descobertos neurônios chamados de place cells (células de lugar). Quando os cientistas espetaram pequenos eletrodos capazes de detectar a atividade de uma única célula do hipocampo, descobriram a existência de neurônios que só disparam sinais elétricos quando o animal está em um lugar determinado da gaiola.

Quando estou na poltrona, as place cells poltrona estão ativadas. Quando levanto, esses neurônios param de mandar sinais, mas outros neurônios, as place cells corredor, começam a disparar. Ao virar à direita, elas ficam quietas. Por fim, as place cells geladeira começam a funcionar. Essas células são a representação material do mapa que nosso cérebro constrói do ambiente em que vivemos. Hoje, sabemos que esses mapas são reconstruídos quando mudamos de ambiente. Você já deve ter reparado que ao chegar a um hotel, em uma cidade desconhecida, você se sente desorientado ao caminhar pela vizinhança. Mas ao longo de dois ou três dias passa a se sentir confortável ao caminhar pelo bairro.

Mas eu moro no 18.º andar de meu edifício e não existem place cells nem no meu cérebro nem no cérebro de um rato que indiquem a altura em que estou. Se eu transportasse toda a mobília do meu apartamento para o primeiro andar e, lá embaixo, decidisse sair da poltrona para tomar água, as mesmas place cells seriam ativadas. Isso significa que o mapa que formamos em nosso cérebro é bidimensional, assim como os de nossos GPSs.

Mas será que existem animais capazes de construir mapas tridimensionais? Os morcegos seriam candidatos naturais, afinal são mamíferos como nós e os ratos, mas se locomovem em um ambiente tridimensional. Mas como investigar a existência de place cells em morcegos? Nos ratos é fácil: você implanta um eletrodo no cérebro do bichinho, liga o fio ao computador e deixa ele andar em uma grande gaiola enquanto mapeia em que local da gaiola cada célula é ativada. Mas fazer isso com um morcego é impossível - ele voa para cima e para baixo, cruza a gaiola de um lado para outro.

A novidade é que dois cientistas de Israel conseguiram estudar as place cells de morcegos. Eles construíram uma gaiola de 6 por 5 metros de área com uma altura de 3 metros. Câmaras e microfones foram instalados de modo que a posição do morcego durante o voo, a cada fração de segundo, pudesse ser determinada (um morcego voa a uma velocidade de 1 a 3 metros por segundo). Feito isso, construíram um pequenos eletrodo que foi implantado no cérebro do morcego. Esse eletrodo mandava os sinais captados no hipocampo para um rádio, que transmitia para antenas colocadas dentro da gaiola. Assim, foi possível medir a atividade de cada célula, a cada milissegundo, e correlacioná-la com a exata posição do morcego durante o voo.

Os resultados são lindos. Foram estudados 139 neurônios em três morcegos. Os dados mostram que para cada região da gaiola o morcego possui um grupo de place cells. Quando ele voa do canto inferior direito para o canto superior esquerdo, vira e volta em uma rasante pelo chão, diferentes place cells estão ativas em cada momento do voo e a célula que indica "canto superior esquerdo" é ativada sempre que o morcego passa por aquele local, independentemente da trajetória do voo.

Os resultados demonstram que o cérebro dos morcegos é capaz de construir uma mapa tridimensional do espaço, muito mais rico que o nosso, que é bidimensional. Se eu tivesse essa mesma capacidade, tomar água no 18.º andar ou no 1.º seriam experiências totalmente distintas, mesmo que os dois apartamentos fossem idênticos. É uma sensação que nunca vamos poder experimentar nem sequer imaginar. Estamos condenados a uma vida espacial mais pobre. Como eu queria ser um morcego por uma noite...

*MAIS INFORMAÇÕES: REPRESENTATION OF THREE-DIMENSIONAL SPACE IN THE HYPPOCAMPUS OF FLYING BATS. SCIENCE,  VOL. 340,  PAG. 367,  2013

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