JF Diorio/AE
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Quer ser feliz? Entra na fila

Comida, Tirolesa, banheiro, cartomante, montanha-russa, brindes. Se somar tudo isso, chega a 7 horas de fila

Paulo Sampaio, Enviado Especial/Rio, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2011 | 03h02

Mais da metade dos R$ 190 que a assistente administrativa metaleira Ludmila Melo, de 27 anos, gastou no ingresso do Rock in Rio ela perdeu em filas. Das 12 horas em que a Cidade do Rock fica aberta diariamente, Ludmila ficou cerca de 7 em pé, à espera de um sanduíche, de um giro na roda-gigante, um "voo" na Tirolesa. Só nas desta última e na da lanchonete, foram 5h40.

"Gente, é muito tempo", diz Ludmila, que aguarda nas filas com uma camiseta onde se lê "Should I Stay or Should I Go". Ao lado do namorado, o técnico em informática Leandro de Castro, de 28, se revela uma metaleira precavida. Cabelos coloridos, minissaia e meias com imagens de caveirinhas, conta que veio preparada para não "pagar calcinha" ao passar suspensa no ar. "Estou com um short por baixo da saia." "Maneiro, aí", resumiu Leandro.

Contrariando as maledicências dos preconceituosos, os metaleiros demonstram um comportamento exemplar nas filas: não se registrou nenhum ruído distorcido ou quebradeira, no máximo um ronronar estomacal característico em qualquer ser humano morto de fome.

"Estamos aqui desde o fim do show do Matanza; já acabou o do Korzus e vai começar o do Angra, e ainda não compramos a ficha. Depois, tem a fila para pegar o sanduíche", conta a taciturna professora de geografia Ana Paula Teixeira, de 26. Ela e o namorado, o controlador de voo Julian Martins, de 23, pretendem comprar logo vários tíquetes: assim, enfrentam só a fila do sanduíche.

Além das filas pela sobrevivência, há as opcionais, por brindes. Um pufezinho inflável de plástico levou a gerente de atendimento Aline dos Santos, de 22, a enfrentar uma de 1h50. "Cara, eles chamam isso de brinde, mas está mais para pagamento de promessa", queixa-se.

Fãs do Slipknot, os irmãos Adonis e Rebeca Bartolote da Silva, de 17 e 21 anos, 4 horas em filas, desembarcam resignadamente da roda-gigante. "Já que viemos, a gente resolveu aproveitar tudo", justifica Rebeca, que se diz mais metaleira do que o irmão. "Como assim?", reage Adonis, com indignação. Para mostrar-se iniciado, explica que os trajes escuros dos metaleiros simbolizam o ódio. Nada específico contra a organização do Rock in Rio, afirma, "é ódio de uma sociedade injusta".

A terapeuta Ângela Ribolo, de 45, mãe de uma metaleira adolescente que também está na fila da roda-gigante, desabafa: "Ódio tenho eu, dessa barulheira".

Na espera pelo atendimento da taróloga (sim, ali também), a gerente de loja Kariny Araújo, de 29, 1h40 na fila, conta que ali houve desistências. Ela explica que está totalmente dentro de sua filosofia metaleira crer em cartomantes - não só em Deus. "Da última vez em que me consultei, recebi uma mensagem que foi muito importante", diz, vagamente.

De repente, um momento de tensão: a própria cartomante está com fome. E informa a quem espera na fila que vai precisar deixá-los, mas será rendida por uma colega. Mas, ufa, Kátia Clinquart, de 52, não pega fila pra comer. "A gente tem um camarim", afirma ela, que, pelo visto, previu o futuro e se garantiu.

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