Quer correr? Siga os passos deste homem

O psicoterapeuta David Cytrynowicz descobriu as corridas de rua perto de fazer 40 anos e desde 1995 está à frente da maior associação de atletas do País

Iuri Pitta, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2010 | 00h00

Difícil descobrir a paternidade de uma prática que move 4,5 milhões de brasileiros. Se for válido o ditado de que pai é quem cuida, David Cytrynowicz é forte candidato ao simbólico papel - pelo menos para os corredores paulistanos. Faz 15 anos que esse psicoterapeuta filho de poloneses, nascido em um campo de refugiados na Alemanha em 1947, é presidente voluntário da Corpore, maior associação de corrida de rua no País.

Isso significa cuidar de um cadastro de mais de 275 mil corredores e de uma média de 30 das 800 provas disputadas todo ano no Brasil. E treinar corrida quatro vezes por semana, mais duas sessões de musculação, antes de atender em seu consultório nos Jardins... Fôlego, definitivamente, não é um problema para David.

Hoje, conhecer um corredor de rua é mais que corriqueiro. E não adianta fugir: alguém perto de você passa horas por semana correndo sem destino concreto, mas com determinação inabalável. Muito disso é responsabilidade da Corpore: desde 1994, foram 284 corridas promovidas pela entidade criada por entusiastas para dar apoio - inclusive financeiro - a atletas como Joaquim Cruz, medalha de ouro na Olimpíada de Los Angeles (1984).

Até hoje, profissionais como o maratonista José Teles de Souza, único brasileiro a completar a prova na Olimpíada de Pequim, disputam as corridas da entidade. "Corri muitas daquelas de 6 quilômetros no Ibirapuera, quando dava para contar nos dedos os participantes."

Massa corrida. E o que levou David às corridas de rua? "Poder comer macarrão!", diverte-se ele. Para bom corredor, a piada com fundo de verdade faz sentido. A explicação: David pratica esporte desde criança, mas após os 30 anos começou a sofrer com o efeito sanfona. "Eu engordava tanto quanto minha mulher quando estava grávida", diz o pai de dois filhos.

Uma noite, jantando com o primo Stephane Malik, perguntou o que pediriam e ouviu: "Preciso comer macarrão." Era véspera de uma prova e comer massa, alimento rico em carboidratos, é dessas receitas tão populares quanto canja de galinha para recuperar as energias. Para um esportista que gosta de comer, deu água na boca e disposição nas pernas.

Claro que ajudou ter jogado basquete pelo clube A Hebraica na juventude e seguir nos "rachões" depois de adulto. Mas essa seria a mais fácil das guinadas na trajetória de David. Ainda na Alemanha, sua família abriu uma fábrica têxtil, mas deixou o país quando eclodiu a Guerra da Coreia. "O medo do meu pai era aquilo chegar à Europa."

A família chegou a São Paulo em 1953 e logo se aproximou da colônia judaica no Bom Retiro. O maquinário veio da Alemanha com os irmãos de Artur, pai de David. Foi o início de uma indústria que chegaria a 6 mil empregados. Natural que o filho se formasse administrador e assumisse a empresa. Depois que Artur morreu, a família preferiu vender a fábrica e David, mudar de carreira.

Água? Psicólogo perto dos 30, corredor com quase 40 anos. A estreia nas provas foi em Ilhabela. Cinco quilômetros, distância curta, mas percurso traiçoeiro. Hoje, David e tantos outros corredores viajam o mundo só para correr, algo impensável duas décadas atrás.

"Quando comecei, correr era quase como uma confraria", conta o segundo dirigente mais longevo da Corpore, membro da diretoria desde 1992 - e presidente desde 1995. As planilhas de treino que hoje o Google localiza em um clique eram passadas no boca-a-boca, e mal se falava em tênis específico para correr.

Eram tão esparsas as informações que, em sua primeira meia-maratona (corrida de 21,1 km), David "quase morreu". E por "culpa" do primo que o levou ao esporte. "Eu não suo muito e bebo pouca água nas provas", diz Stephane. O determinado estreante seguiu a dica. Resultado: concluiu a prova desidratado e com hipotermia.

"Além de determinado, ele sabe motivar e agregar as pessoas", considera Luiz de Argila Bernabeu, treinador de atletas profissionais e amadores em São Paulo. "E é daqueles líderes que estão na linha de frente."

De fato, sempre que pode David participa de eventos da Corpore e também de outras entidades ou empresas organizadoras de corridas. Sua distância favorita é a meia-maratona. Ele também adora a prova de 9 km que levará 6,5 mil corredores ao centro da cidade, nesta manhã de Dia dos Pais. "É um percurso especial, passa pela Praça da Sé, Anhangabaú, Teatro Municipal..." Por uma dessas infelicidades que viram história para contar, Cytrynowicz não estará lá: ele foi diagnosticado com dengue, o que também explica a foto feita em casa, e não em um treino no Parque do Ibirapuera. O consolo é pensar que nem a velocidade de Usain Bolt ajudaria a escapar dessa...

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