Quem vai ficar com os bustos do Arouche?

Integrantes da Academia Paulista de Letras se dividem entre acolher as peças depredadas e deixá-las sob responsabilidade da Prefeitura

Edison Veiga,

03 de outubro de 2010 | 00h12

A má-conservação dos bustos do Jardim dos Escritores, instalados desde a década de 1950 no Largo do Arouche, centro de São Paulo, virou polêmica na Academia Paulista de Letras (APL). Isso porque o secretário de Estado da Cultura, Andrea Matarazzo, sugeriu que as peças sejam transferidas para a sede da entidade, que fica em frente. Mas muitos acadêmicos são contra.

"Os bustos não foram feitos para ficar escondidos, mas expostos. Têm de ficar a céu aberto", defende a escritora Lygia Fagundes Telles, dona da cadeira 28 da Academia. "A depredação é revoltante. Pagamos esse preço pelo País não ter investido em educação." Ocupante da cadeira 35, o poeta Paulo Bomfim concorda. "Os bustos devem continuar onde estão, no largo. O problema é que eles ficam mal vigiados. E precisam ser restaurados."

Alguns acadêmicos defendem o argumento de que - assim como outras 400 esculturas em espaços públicos - as peças pertencem ao Município e são de responsabilidade da Prefeitura. Na outra ponta estão os que defendem que a Academia, como parte interessada no tema, deveria abrigar as peças em sua sede. "Trata-se de uma reorganização do espaço. E as peças estariam a salvo da depredação", afirma Matarazzo. "Em lugar nenhum do mundo se consegue ter um guarda para cada estátua."

O "acolhimento" é defendido pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, dono da cadeira 37. "A Academia tem um saguão de entrada. Podem ficar ali até que não haja mais roubalheira neste País."

Parecer. Em agosto, a Divisão de Preservação do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) iniciou a avaliação do processo de remoção dos bustos da praça - para acolhida pela Academia. O manifesto foi favorável.

Para José Renato Nalini, presidente da Academia, a instituição acolher os bustos é uma solução, se não ideal, ao menos adequada. "Eu gostaria que o Jardim dos Escritores ficasse preservado ali, na praça, com zelo, cuidado e iluminação. Afinal, seriam um ponto de culto à intelectualidade", explica. "Mas, já que isso não parece possível, vejo que o mal menor é que as peças fiquem dentro da Academia."

A ACADEMIA POR DENTRO

Fundada em 1909, a Academia Paulista de Letras tem 40 vagas - assim como a Brasileira, cuja sede fica no Rio. Suas reuniões ocorrem sempre às quintas-feiras, no 2.º andar da sede da instituição, no Largo do Arouche. São precedidas por um chá da tarde - no qual são servidos salgadinhos, bolos, frutas, sucos e, caso alguém queira, cerveja ou uísque. Vaga desde 29 de agosto, com a morte do poeta jurista Geraldo Vidigal, a cadeira 24 tem um forte candidato: o cartunista Mauricio de Sousa, pai da Turma da Mônica. A eleição está marcada para dezembro - e o apoio a Mauricio já vem sendo costurado nos bastidores.

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