Quem desiste antes? Polícia ou usuários e traficantes?

Bruno Paes Manso

O Estado de S.Paulo

05 Março 2012 | 03h01

Mais de dez prisões e quase 400 abordagens policiais por dia. No linguajar do crime, a cracolândia "está suja". Mesmo assim, continua ativa, funcionando como sempre: itinerante, autossustentável, com usuários revendendo pedras para sustentar o consumo, indo para lá e para cá conforme a ação da PM.

O grau de resistência dessa sociedade, tipicamente paulistana, onde convivem os excluídos dos excluídos, lança algumas perguntas no ar: quem vai cansar primeiro? As autoridades, que já fizeram incontáveis operações semelhantes, ou os usuários e traficantes, que transformaram essa parte da cidade em um território livre para vender e consumir crack?

Conforme mostram trabalhos como os do Projeto Quixote, a mudança de vida de quem usa crack vai muito além do tratamento de saúde. É preciso reconstruir laços familiares que foram desfeitos, retomar projetos de vida abandonados, reorganizar lares destruídos pelo vício e contar com o desejo profundo do usuário de mudar de vida.

Se ter políticas que ajudem a reconstruir essas trajetórias é fundamental, não é o suficiente para acabar com a cracolândia. A cracolândia só vai desaparecer quando o hábito de se agrupar em um território supostamente tolerante ao consumo e venda de drogas também deixar de existir. Quanto tempo isso pode demorar? Poucos são capazes de arriscar resposta para algo que não chegou perto de acontecer.

Mas insistir pode valer a pena. Porque a cracolândia é, acima de tudo, um lugar que sempre vai exercer enorme atração para aqueles que querem largar o vício. Sua existência é o chamado para se viver em uma sociedade capaz de receber qualquer um de braços abertos. Para uma vida sem nenhum sentido, que gira em torno da "felicidade em pedra". É mais difícil para o viciado mudar de vida com a cracolândia ao lado.

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