Quem cedo madruga

Nossa memória está repleta de monumentos que não foram esculpidos na pedra nem fundidos no bronze. Cada um tem os seus, aquela coleção das coisas e dos fatos memoráveis, do que foi suprimido dos cenários e da vida, mas permanece gravado na mente e nas lembranças. É nesse sentido que minha memória me pede para trazer aos olhos uma bela e significativa fotografia desse grande criador de uma estética da imagem fotográfica da nossa vida cotidiana, particularmente da cidade de São Paulo, que é German Lorca. É a foto de dois homens lendo o Diário Popular. A sombra da luz oblíqua do sol matutino introduz na imagem a dimensão do tempo miúdo das horas e minutos, o tempo do cotidiano, que é por isso o tempo da modernidade, das coisas fugazes, do temporário e breve, do que é pequeno e insignificante. Lorca, que nasceu no Brás operário, em 1922, filho de imigrantes, conhecia perfeitamente o significado da fotografia que ia fazer na manhã em que a fez.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2011 | 00h00

Nos anos 1950, o Diário Popular era um jornal maçudo, de ralo conteúdo, lido não pelo que noticiava, mas pelos empregos que anunciava em anúncios minúsculos. Expressava a grande mudança que estava ocorrendo no mercado de trabalho. Desde o início da industrialização, no final do século 19, os empregos do proletariado que nascia eram conseguidos por ouvir dizer, frequentemente através da intermediação de parentes e conhecidos. As empresas preferiam dar emprego a alguém já ligado a algum de seus empregados, não raro de uma mesma família. O mercado de trabalho era, assim, atravessado pelas regras da moral de família. Disfarçado meio, aliás, de controle social sobre as chamadas classes perigosas.

Com o tempo, surgiu a placa do "Precisa-se" nas portas das fábricas, com espaços para encaixe das tabuinhas com os nomes das profissões. Sempre uma pequena multidão na porta das empresas, com a carteira de trabalho na mão para ser recolhida e examinada pelo encarregado da secção de pessoal. Que, aliás, tinha curiosos critérios para decidir a quem recrutar. Prestava atenção em gestos e posturas dos candidatos ali na rua. Não recolhia a carteira de quem estivesse encostado na parede, sinal de gente "cansada", comodista, dizia a improvisada psicologia dos recrutadores.

Lorca, nessa fotografia, fez um instantâneo expressivo da vida dos paulistanos que dependiam do suor do rosto para ganhar o pão nosso de cada dia. A dos que corriam logo cedo para as portas do jornal para conseguir um dos primeiros exemplares, pois Deus ajuda quem cedo madruga. Depois, de bonde ou de trem, disparavam para a porta das empresas que haviam anunciado vagas nos minúsculos anúncios do jornal. Quem chegasse primeiro tinha mais chance de conseguir o emprego do que quem chegasse por último. Os últimos serão os primeiros? Banana, macaco!

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