Queda de homicídios tem inconsistências

Análise: Wilson Tosta

O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2011 | 03h03

O véu de obscuridade e dúvida que cobre estatísticas de criminalidade no Rio torna-se mais evidente na análise do aumento das mortes por causas externas indeterminadas, paralelo à queda em taxas de homicídio alardeadas pelo Palácio Guanabara.

As inconsistências, apontadas pelo Estado em 7 de junho, começaram na gestão Sérgio Cabral Filho em 2007. Ocorreu salto no número de mortes violentas sem causa especificada para 3.191 - ante 1.676 em 2006 (último ano do governo Rosinha Garotinho). Ou seja: sem explicação, em 365 dias saltou 90,4% o total de pessoas mortas por homicídio, suicídio ou acidente. E os assassinatos, nas contas da Secretaria de Segurança do Rio, recuaram de 7.122 a 6.313 - diminuição de 11,3%, difícil de ocorrer em 12 meses.

Estudo do economista Daniel Cerqueira, do Ipea, iniciado a partir da reportagem e divulgado em outubro, mostrou outros problemas. A partir de números do Datasus, banco de dados do Sistema Único de Saúde, Cerqueira comprovou que a média anual de mortes por causa indeterminada foi de 1.857, de 2000 a 2006, para 4.021, de 2007 a 2009. Também apurou recuos, entre os dois períodos, nas médias de mortes por suicídio (412 para 299), acidente (1.901 para 1.818), homicídio (7.463 para 5280). E mostrou que, na maioria das "mortes indeterminadas", as vítimas eram jovens e morreram baleadas na rua - perfil, na verdade, de alvos de assassinato, outro indício de algo errado nos números do Rio.

Embora o governo Cabral argumente que suas estatísticas se baseiam nos registros em delegacia, não no SUS, há indícios de que os números têm discrepância grave. As dúvidas dão margem à interpretação de que homicídios podem estar contabilizados como mortes sem causa determinada, ajudando a construir a narrativa otimista de redução da criminalidade e "renascimento do Rio" que se tornou marca da administração e ajudou na conquista de eventos como a Olimpíada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.