Que seria de mim sem a Solange?

Que seria de mim sem a Solange?

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2010 | 00h00

- Meu cabelo está pendoando - anuncia a prima, apalpando as melenas.

Tenho anos, décadas de Solange, mas confesso que ela, com o seu solangês, às vezes me pega desprevenido.

- Seu cabelo está o quê?

- Pendoando - insiste ela - e, com a paciência de quem explica algo elementar a um total ignorante, traduz:

- Bifurcando nas extremidades.

É assim a Solange, criatura para a qual ninguém morre, mas falece, e, quando sobrevém esse infausto acontecimento, tem seu corpo acondicionado num ataúde, num esquife, quiçá num féretro, para ser inumado em alguma necrópole, ou, mais recentemente, incinerado em crematório. Cabelo de gente assim não se torna vulgarmente quebradiço, que nem o seu e o meu: pendoa, bifurca-se nas extremidades. Pendoado ou não, convém às mulheres prendê-lo com ramonas - que é como a Solange se refere ao grampo, desde que, faz tempo, foi passar uns meses no Triângulo Mineiro.

Conviver com a prima é como folhear um dicionário e ir botando o dedo no que haja ali de mais bizarro. Quem mais haveria de desovar na conversação esquisitices verbais como "alvedrio"? Certa vez (ela preferiria "de certa feita"), quando éramos adolescentes, a Solange me chamou de estroina, e por pouco não lhe agradeci, pois cheguei a farejar elogio no termo para mim então desconhecido.

Você pode achar que estou sendo implicante, metido a policiar a linguagem alheia. Brasileiro é assim mesmo, adora embonitar a conversa para impressionar os outros. Sei disso. Eu próprio já andei escrevendo sobre o que chamei de ruibarbosismo: o uso de palavreado rebarbativo como forma de, numa discussão, reduzir ao silêncio o interlocutor ignaro. Uma espécie de gás paralisante verbal. Mais de uma vez vi gente de queixo caído ante as extravagâncias vocabulares que o Antonio Houaiss aspergia na mais prosaica mesa de boteco. Ninguém achava que fossem - para dizer como ele - coisas de encher quaisquer sacos. No mesmo time, mas sem o saber e a simpatia do grande lexicógrafo, jogava o Jânio Quadros, com seus quilos de "fi-lo" e suas mesóclises.

A Solange também é chegada nessas construções entrecortadas por hífens. O Senhor mo-lo deu, o Senhor mo-lo tomará, costuma recitar, menos por fé religiosa, suponho, do que por gosto pela fala picotada. Parece achar que o Criador coloca bem os pronomes. Estou vendo a hora em que a prima virá para cima de mim com um "ser-lhe-ão".

Mas a Solange, é preciso que eu vo-lo diga, não pertence ao time do Houaiss ou do Jânio. Ela não quer impressionar ninguém. Quer apenas dar o seu recado, que sucede vir envelopado em fala tortuosa. Não se sente minimamente pedante. Apenas acredita que, se está no dicionário, é para usar - e usa. Como, aliás, usa todos aqueles sinais empoleirados no alto do teclado.

O tal de #, por exemplo, que este cronista, sempre tosco, chamava de jogo da velha. O nome é cerquilha, corrige a Solange, que até em outras línguas se empenha em abastecer meu rarefeito vocabulário: os americanos dizem pound sign, e os australianos, pound number, havendo países onde se diz hash. Tá. Tem mais: sabia que aqueles dois circunflexos deitados - < > - têm nome (e até serventia, parece), ainda que não dicionarizado por aqui? É chevron. Até hoje não precisei usar, mas nunca se sabe.

Que seria de mim sem a Solange? Foi ela quem me ensinou também a chamar o & de ampersand, e não de "E comercial". É como?! Ampersand, explicou a prima, sacudindo seus cabelos pendoados e sem ramonas: vocábulo inglês nascido do junção de and per se and.

Apóstrofo é com ela - mesmo na conversa, a Solange vive apostrofando, sobretudo para driblar cacófatos: u"a mão. Mas o seu forte é o palavreado. Não sei como se arranjou nesse departamento quando, já madura, se casou (ela diria "contraiu núpcias") com o Martin, cidadão americano. Até onde vão os meus conhecimentos linguísticos, e admito que não vão longe, o idioma inglês não admite mesóclise. Será que foi por isso que o casamento da Solange não deu certo?

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