Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Quase um ano após tragédia, igreja luterana do Paiçandu inicia restauro

Igreja Martin Luther começa processo de restauração; ela foi atingida no desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo, que deixou nove mortos

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - Não é preciso entrar na Igreja Martin Luther para ver o que guarda. Da lateral esquerda, em grande parte descoberta, é possível avistar o altar, seis bancos, o ladrilho carmim e também os andaimes que ajudam a manter o local de pé, após ter sido atingido no desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paiçandu, centro de São Paulo, que deixou nove mortos.

O espaço começa, contudo, a se aproximar do que era antes, há quase 11 meses. Nesta quarta-feira, 27, o processo de restauro teve início, o que deve durar cerca de um ano, segundo o pastor Jonathan Klebber, de 30 anos, um dos dois pastores locais.

“Vai ser muito significativo para a comunidade, não pensando a igreja apenas como um templo em construção. Mas como o local onde muitas pessoas celebraram alegrias, batizaram os filhos, tiveram a bênção matrimonial aqui. Um local em que também choraram tristezas em sepultamentos, muitas vezes havia velórios dentro da igreja no passado.”

O religioso ressalta o valor histórico do local, que é a primeira igreja luterana da capital paulista (fundada há 110 anos) e bem tombado em nível municipal desde 1992 – e tombado provisoriamente pelo Estado. “É importante para a própria história de São Paulo.”

Naquele 1.º de Maio, ele chegou ao Paiçandu logo pela manhã, quando encontrou o também pastor Frederico Ludwig. “Era uma sensação de não acreditar no que estava acontecendo, uma dor principalmente por aquelas vidas que se perderam. O que aconteceu com a igreja é doloroso, mas foi uma perda material. As vidas não têm como recuperar; a igreja, a gente reconstrói.”

A restauração começou na quarta-feira, 27, a após a primeira fase da obra receber aval. Segundo o pastor, se os órgãos de patrimônio permitirem, o objetivo é que a igreja fique o mais próxima possível do que era. Por enquanto, apenas a primeira fase já teve o projeto liberado nos conselhos de preservação.

Além dos cerca de R$ 200 mil gastos em obras emergenciais, a restauração completa custará R$ 4,2 milhões. Do total, contudo, está assegurado apenas o recurso da primeira fase (de R$ 1,7 milhão), decorrente de um seguro do imóvel e de doações.

A previsão é de que a obra leve um ano. “Mas tem a questão financeira, que pode fazer com que pare temporariamente”, ressalta o pastor. “A nossa alegria é de poder reiniciar a obra e garantir que não vai mais se deteriorar, que não vai mais ficar exposta às intempéries do tempo.”

Enquanto isso, os cultos são realizados desde julho em uma área coberta ao lado do templo, normalmente utilizada para estacionar carros. Lá, um altar é improvisado com uma mesa, enquanto os fiéis se acomodam em cadeiras de plástico.

O pastor lembra que, após a liberação do local, mal era possível distinguir qual era o terreno do prédio e o da igreja. Onde hoje é a rampa, por exemplo, estava um buraco com mais de 2 metros, que era utilizado na busca por corpos e possíveis sobreviventes. Na igreja, também se acumulou entulho, que passou por triagem do que seria usado como molde na obra.

Essa parte da história, e também períodos anteriores da igreja, estão sendo registrados em imagens. Segundo o pastor, estuda-se a ideia de expô-las na entrada da igreja.

Igreja estava restaurada na época da tragédia

Neogótica, a igreja luterana havia passado por uma restauração pouco antes da tragédia. A obra, desta vez, é dividida em quatro fases, sendo a primeira de reforço das fundações, reconstrução da parede lateral, moldura dos vitrais, amarração do altar e reconstrução do telhado e do forro, dentre outros elementos.

Nas demais etapas, estão previstas revisão da estrutura da torre e reconstrução dos vitrais, bancos e lustres e demais itens da igreja. O órgão será devolvido ao local somente após a conclusão.

Nos dois primeiros dias, foram instalados marcos de medição para monitorar a movimentação do prédio. “Monitoramos antes, durante e depois do trabalho. Não só a estrutura do prédio, mas o entorno e o solo, que também foram abalados”, explica André Bolanho, sócio da Bolanho Arquitetura, responsável pela obra.

Ele aponta que a primeira fase do projeto garantirá a estabilidade do que restou da igreja e evitará maiores deteriorações, principalmente as causadas pelo clima. “Tudo é um grande desafio, essa parte de reforço estrutural, a reconstrução dos vitrais e da alvenaria, o desenho do telhado - que é único.”

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