Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Quase centenária, viúva de Donga ganha homenagem

Sambista desde sempre, Vó Maria será tema de enredo do Clube do Samba; proibida pelo marido de cantar, gravou CD aos 92 anos

Fernando Paulino Neto, O Estado de S.Paulo

02 Março 2011 | 00h00

Na estante da sala do modesto apartamento de Maria das Dores Santos, a Vó Maria, na Tijuca, zona norte do Rio, a Ordem do Mérito Cultural e a Medalha Pedro Ernesto, principal comenda do município, dividem espaço com placas do Clube do Samba que a homenageia com o enredo do bloco, que desfilará em 8 de março, Dia Internacional da Mulher. "É uma maravilha na minha idade sair como destaque. Sou fundadora do bloco (em 1979) e saí em todos os desfiles até hoje."

Viúva de Donga - autor da primeira música gravada que se autorreferia como samba (na verdade era um maxixe) -, Vó Maria faz 100 anos no dia 11 de maio em plena atividade e com muita vontade de brincar o carnaval, que, nos últimos tempos, a faz lembrar das tranquilas batalhas de confete no fim da década de 1920 na Rua Dona Zulmira, em Vila Isabel. "O carnaval de rua agora está muito bom. Tomara que continue assim."

Nascida em Mendes, no interior do Estado, Vó Maria veio para o Rio aos 10 anos, para fazer companhia às duas filhas de um casal de médicos portugueses que costumava passar as férias em um sítio perto de sua casa. Ela teve a mesma educação que os filhos do casal. Era proibida de brincar o carnaval em outras áreas da cidade, onde começava a proliferar o samba. A fama dos sambistas não era nada boa.

"O pessoal do samba bebia muito. Tinha muita briga e todo mundo acabava preso lá para os lados da Central e da Praça 11 (onde começaram a desfilar as escolas de samba)", lembra Vó Maria. Já nas suas favoritas batalhas de confete, a coisa era diferente. "A gente andava sossegada."

Durante o carnaval, Vó Maria usava blusas largas para que o confete entrasse pela roupa e ficasse grudado no corpo. "Até mesmo o Donga, que era oficial de Justiça, era considerado vagabundo porque tocava violão."

Mas Vó Maria, naquele tempo, não se misturava com os negros da "Pequena África", como era conhecida a região da Praça 11. Ela só começou a se relacionar com Donga, seu terceiro marido, na década de 1960, graças à amizade de sua neta, Sônia Regina, com a filha do compositor, Lygia Santos.

Rodas de samba. O gosto pela música veio muito antes. Muitas das canções que gravou em seu único CD, Maxixe não é samba, lançado quando tinha 92 anos, vêm dos bailes do Grajaú Tênis Clube que ouvia a distância, aos 18 anos.

"Eu ficava na sacada de casa ouvindo a música. Já tinha samba no Grajaú na década de 30", diz. Vó Maria começou a cantar em público, nas rodas de samba, aos 89 anos, quando participava de eventos no Museu da Imagem e do Som. Depois da primeira viuvez, começou a participar com seus irmãos de um bloco de carnaval em Mendes.

Os maridos de Vó Maria eram ciumentos com aquela negra bonita. E não deixavam que ela exibisse seus dotes de cantora. Donga inclusive. Nas festas da casa do compositor, onde frequentavam Pixinguinha, Cartola, Ismael Silva, o jovem Martinho da Vila e outros bambas, ela, às vezes, se assanhava e ia se cercando da mesa onde estavam os sambistas. "Donga me olhava e dizia: você não tem que ver o feijão lá na cozinha?" Os amigos perguntavam por que ele não deixava ela mostrar seu talento, encerrava o assunto categórico: "Enquanto for vivo, ela não canta."

Agora, Vó Maria canta em rodas de samba, viaja para shows e não precisa dar satisfação aos maridos que, carinhosamente, dividem o espaço da aliança de ouro que ela mandou fazer com o nome dos três gravado. "Essa aliança tem três maridos", diz, com um sorriso maroto.

TRECHOS

"Ai, ai, ai / Ai, ai, ai /

Com axé de Vó

Maria o Clube do

Samba sai / Ai, ai, ai

que legal / hoje é dia das Marias vem brincar

o carnaval

O Clube do Samba chegou /

Pra levantar poeira / Vó Maria

centenária / Retrato da mulher

brasileira

Mulher rima rica do samba /

Mulher nobreza de um bamba /

Será para sempre a nossa diva /

Pra que o samba sobreviva

Num majestoso astral / Tem

cheiro de rosa / Tão vaidosa,

guerreira também / Bom tempero na comida /

Faz a vida mais bonita /

Sempre deu mais do que tem

Tem cheiro de rosa /

Tão vaidosa, perdeu e ganhou /

Um caminho vivido /

Viuvou de três maridos /

Superou a Dona Flor

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