Quantos seremos em 2100?

É desanimador discutir quantos seres humanos habitarão a Terra no ano 2100 na semana em que um vírus capaz de matar mais de 50% das pessoas infectadas está começando a se espalhar pelo planeta. Mas, como tudo indica que o Ebola vai ser contido (a chegada do vírus aos países desenvolvidos é o que faltava para amainar a mesquinhez político-econômica que bloqueou até agora o desenvolvimento de uma vacina), vale a pena entender as novas projeções de crescimento divulgadas recentemente pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Fernando Reinach  , O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2014 | 02h02

A grande novidade nos dados (que são atualizados a cada dois anos) é que agora a ONU adotou uma metodologia estatística mais sofisticada, que permite calcular a probabilidade de cada cenário. Até a última atualização, a ONU simplesmente fazia sua projeção básica e calculava um cenário máximo adicionando meia criança à taxa de fertilidade de cada país e um cenário mínimo subtraindo meia criança da mesma taxa. Assim, se no Brasil a taxa de fertilidade é de 2 filhos por mulher, o cenário máximo era calculado usando 2,5 filhos e o mínimo era 1,5 filho por mulher.

Muitos cientistas reclamavam desse método pois, apesar de uma variação de meia criança em uma direção ou outra ser uma hipótese razoável para um dado país, imaginar que essas mudanças, em uma ou outra direção, ocorreria simultaneamente em todos os países é muito difícil.

Agora, com a nova metodologia, são calculados intervalos associados a uma certa probabilidade. Assim, se você quer saber com 80% de confiança o que vai acontecer com a população mundial nos próximos 50 anos, é possível calcular a curva de crescimento máximo e mínimo dentro desse intervalo de confiança. Vejamos então o que deve ocorrer com 80% de probabilidade até o ano 2100.

A primeira grande novidade é que a população humana total não vai se estabilizar antes de 2100, como se acreditava. Se hoje ela é de 7,2 bilhões de pessoas, em 2100 teremos entre 9,6 bilhões e 12,3 bilhões de bocas para alimentar. A estabilização vai ocorrer em todos os continentes por volta de 2050, quando a população global estará entre 9,2 bilhões e 9,8 bilhões de pessoas. A partir dessa data, todo o crescimento populacional virá da África subsaariana. Hoje, a África tem 1,2 bilhão de pessoas, vai chegar a um valor entre 2,3 bilhões e 2,5 bilhões em 2050, e vai continuar crescendo, chegando a um valor entre 3,1 bilhões e 5,7 bilhões em 2100. Um crescimento assustador, que levará a África a ter a mesma população da Ásia em 2100. A densidade populacional na África será similar à densidade existente hoje na Ásia.

A principal razão para esse crescimento assustador na África é a alta taxa de fertilidade, por volta de 6 crianças por mulher. A taxa, que vinha caindo rapidamente desde 1980, agora diminuiu muito sua velocidade de queda e praticamente estagnou, como na Nigéria. Os demógrafos acreditam que isso se deve às dificuldades de implementação de programas de controle de natalidade. Entre todas as mulheres que pedem voluntariamente anticoncepcionais, somente 25% delas têm acesso ao medicamento. As projeções da ONU sugerem que a taxa de fertilidade nesses países só chegará a 2 ou 3 filhos por mulher em 2100.

Outro dado interessante é a Razão de Suporte Potencial (potential support ratio). Este índice é calculado dividindo a população com idade entre 20 e 65 anos pela população com mais de 65 anos. Ele estima quantos adultos ativos existem para cada pessoa aposentada. Hoje, o país que tem o valor mais baixo para esse índice é o Japão, onde duas pessoas trabalham para cada aposentado. No Brasil, esse número hoje é 8,1, e vai chegar a 2,2 em 2050 (seremos similares ao Japão de hoje). Chegaremos a menos de 2 em 2100, uma trajetória similar à projetada para a China e Alemanha. O número mostra bem uma das principais razões por que cada dia fica mais difícil para os países sustentarem os aposentados. Se hoje, com oito pessoas trabalhando e pagando o INSS, o sistema já está em crise, o que vai acontecer quando somente duas pessoas contribuírem para sustentar cada aposentado?

Essas projeções da ONU, agora mais precisas, são assustadoras e demonstram como nossa espécie está ocupando o planeta, aumentando sua densidade e exaurindo as riquezas naturais. O lado positivo é que essas projeções tomam como princípio que, nos próximos 80 anos, a espécie humana vai se comportar como vem se comportando nas últimas décadas. E isso pode mudar.

É BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: WORLD POPULATION STABILIZATION UNLIKELY THIS CENTURY. SCIENCE VOL. 346 PAG. 234 2014

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