Quanto mais pobre, menos o brasileiro confia na polícia

No geral, três em cada cinco pessoas ouvidas em pesquisa não acreditam na corporação; para especialista, falta diálogo

WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2012 | 03h03

Quanto mais pobre, menos o cidadão confia na polícia. Esse é o resultado de uma pesquisa nacional feita pela Fundação Getúlio Vargas no primeiro trimestre. O levantamento aponta que 77% das pessoas que ganham até dois salários mínimos (R$ 1.244) não acreditam nas forças policiais. Vivem nessa faixa de renda 46,3% dos brasileiros. No geral, três em cada cinco pessoas não confiam.

A pesquisa foi feita com 1.550 pessoas, em seis Estados e no Distrito Federal. O índice de confiança aumenta conforme a renda do entrevistado. Entre os mais ricos - aqueles que ganham mais de 12 salários mínimos -, 59% não acreditam na polícia.

Responsável por coordenar a pesquisa, a professora Luciana Gross Cunha, da Escola de Direito de São Paulo, diz que há razões para que as pessoas de baixa renda desconfiem mais. "É porque residem e frequentam locais de mais risco, convivem com o aparato policial voltado para o combate à criminalidade. Nem sempre a polícia é vista nesses lugares como um sinal de segurança, mas de ameaça."

Segundo Luciana, os meios de seleção, treinamento e formação podem mudar essa relação entre a polícia e os mais pobres. Isso passa também pela discussão do papel da polícia e pela valorização - até salarial - do agente público. "Uma vez que você valoriza o policial na comunidade, passa a ser normal e natural a presença dele ali. Agora, quando é desvalorizado, ele se torna perigoso para si e para a sociedade."

A desconfiança também é maior entre os mais jovens. Na faixa dos 18 aos 34 anos, 64% das pessoas não acreditam na polícia. Entre os que têm mais de 60, a confiança é maior. Mesmo assim, mais da metade não confia na instituição.

Violência. Especialista em segurança pública, o coronel da reserva José Vicente da Silva vê uma série de fatores que contribuem para essa má avaliação da polícia. "O Brasil é um país muito violento, a qualidade dos serviços policiais é deficiente, o índice de esclarecimento de homicídios é baixíssimo, de 8%, as prisões são currais de criminosos e os crimes são extremamente explorados pela televisão."

De acordo com o coronel, iniciativas como a adoção do policiamento comunitário, como tem sido feito em São Paulo, podem colaborar para a mudança no relacionamento com a população. "A polícia dialoga mais, faz suas reuniões mensalmente com conselhos de bairro. Essa aproximação é importantíssima, para mostrar o que está sendo feito", afirma. O Estado tem atualmente mais de 500 bases comunitárias.

São Paulo. Os números no Estado são praticamente os mesmos do restante do País. Entre os ouvidos pela pesquisa de forma geral, 38,2% acreditam na polícia. Em São Paulo, são 39,9%.

A Secretaria de Segurança Pública diz que, além do policiamento comunitário, tem feito grande esforço para aproximar a polícia das pessoas. Na formação dos policiais, há aulas de direitos humanos. Na PM, existem aulas de questões étnico-raciais. A SSP ressalta ainda que adota serviço de atendimento ao consumidor e Central de Flagrantes para diminuir o tempo de espera nos distritos, como forma de atender melhor à população.

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