'Quando você mexe no bolso, eles sentem mais', diz diarista

ENTREVISTA

Bruno Boghossian / RIO, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2010 | 00h00

Sirlei Dias de Carvalho Pinto, indenizada após agressão

Mais de três anos depois de um dos momentos mais assustadores de sua vida, quando foi agredida na rua por cinco jovens de classe média na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, a empregada doméstica Sirlei Dias de Carvalho Pinto ainda tenta voltar à rotina. Com uma luxação no braço, ela espera por uma cirurgia no sistema público de saúde e acredita que não vai receber tão cedo as compensações financeiras pelos danos que sofreu.

Na semana passada, a Justiça do Rio determinou que cada um dos rapazes pague uma indenização de R$ 100 mil a Sirlei por danos morais, além dos salários que ela deveria ter recebido desde a agressão, em junho de 2007, quando esperava um ônibus na frente do condomínio em que trabalhava.

Sabendo que os réus ainda podem recorrer da decisão, a moradora de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, se mostra cautelosa e evita fazer planos sobre a quantia a receber.

Você tem esperanças de receber essa indenização?

Estou vivendo com R$ 800 por mês do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), metade do que ganhava antes, mas a minha intenção nunca foi conseguir uma indenização. (A ação civil) foi uma forma de punir os agressores mais uma vez (além da condenação criminal). Foi mais um jeito de punir os agressores e de servir de exemplo para outros que podem pensar em fazer isso. Quando você mexe no bolso, eles sentem mais. Mas sei que eles vão recorrer, então não recebi até agora nem sei se vou receber (a indenização de R$ 500 mil).

O que mudou na sua vida depois da agressão?

Eu fiquei muito tempo sem conseguir carregar meu filho, que tinha 3 anos na época. Hoje consigo pegá-lo no colo, mas de uma forma que a gente descobriu para eu não sentir dor: ele fica no meu colo de um jeito e eu seguro ele com a mão esquerda. Não posso ficar segurando ele com as duas mãos.

Você consegue fazer o que fazia antes desse episódio?

Tem coisas que eu não posso mais fazer direito, como torcer uma roupa, varrer a casa ou lavar uma panela. Eu não consigo fazer mais nada disso sozinha e preciso pedir ajuda. Mas o que mais mudou na minha rotina é que eu não consegui mais trabalhar, que era o que eu mais gostava de fazer. Agora, o que eu mais quero é voltar ao trabalho - fico até ansiosa!

O que você pensou quando soube que os agressores eram jovens de classe média?

A primeira coisa que eu pensei foi que eles tinham perdido uma oportunidade de fazer coisas melhores, porque eles tiveram educação, alimentação, boa moradia e boa formação familiar. Além disso, o que eles aplicaram a mim, aplicaram também às famílias deles. Eu fui agredida fisicamente, mas essa cicatriz ainda está aberta nos parentes deles. Foi uma agressão emocional para as famílias deles.

Você já conseguiu esquecer o que aconteceu?

Se eu disser que não tenho nenhum tipo de trauma, é mentira. Mas a cicatriz maior foi a perda da minha liberdade, de poder ir trabalhar, e fazer coisas que eu gostaria de fazer com o meu filho e perdi nos últimos anos. O primeiro ano foi muito difícil e só comecei a me recuperar fisicamente depois. Na minha cabeça, aquele dia também ficou marcado. Já se passaram três anos, mas, para mim, é como se tivesse acontecido ontem.

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