Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Quando não se tem casa e a coberta fica na rua

No centro, rede informal de ajuda é precária e o transporte para um abrigo demora até 3 horas

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Era pequena a chama que subia da fogueirinha que, às 23 horas da segunda-feira passada, queimava abastecida por pedaços de madeira e papelão em frente à porta fechada da Catedral da Sé. Mas era gigante o calor que sentiam os quatro meninos de não mais de 14 anos em volta dela em mais uma noite fria na cidade de São Paulo. Ali, segundo o pouco que falaram, cada um estava por si. Apenas um corpo imóvel envolto em um cobertor os fazia companhia a poucos metros. E quando acabasse o combustível para o fogo? “Cada um se encolhe no seu canto e aguenta.”

+ Dois moradores de rua morrem na madrugada mais fria do ano

A frente fria que chegou à cidade no fim de semana vinda do Sul está agravando as inúmeras dificuldades a que estão submetidos os milhares que formam a massa uniforme coberta do pé à cabeça vista à noite pelo centro da capital. Encolher-se e aguentar tem sido o mantra repetido por parte deles. Há uma tentativa de manter uma rede informal de ajuda, mas brigas, atividades voluntárias limitadas e falta de apoio e estrutura do poder público, alegam, faz com que só a solidariedade não seja suficiente para vencer essa luta gelada.  

Na Praça da Sé, diz quem está em outras praças e largos do centro, ficam os ‘nóias’ e, por isso, a convivência lá é mais difícil. Mas, no início da madrugada da segunda-feira passada, Roberto Oliveira, de 59 anos, estava em pé e sóbrio na frente da barraca onde tentavam dormir a mulher e os filhos. Falou com clareza sobre a sua situação de rua, que começou em 2016, sete anos depois de chegar vindo de Minas. “Claro que o frio é uma dificuldade, mas o problema é que estamos na rua, eu queria estar em uma casa. Não sou o culpado por estar aqui, estou passando necessidade e procurando todo dia por emprego. O frio é mais uma dificuldade contra o meu objetivo de sobreviver a esta noite”, disse ele que, após trabalhar com serviços de limpeza e como garçom, hoje faz bicos descarregando caminhões. 

Perto dali, no Pátio do Colégio, a sobrevivência estava atrelada à estratégia. É como pensa o catador de material reciclável André Ulisses Casagrande, de 44 anos. Primeiro, ele posicionou suas sacolas com papelão que recolheu durante o dia na parede da Secretaria da Justiça, assim evitava ser atacado por qualquer corrente de vento que maximizaria a baixa temperatura. Depois, pegou um dos papelões coletados e pôs sobre o chão onde se deitou, para só então se cobrir com dois cobertores, um deles guardado de outro dia e o outro adquirido naquela noite na Praça da Sé por meio de doação. Seriam três os cobertores que garantiria a ele um sono relativamente mais tranquilo, mas enquanto saiu para tentar a sorte na fila do sopão, com confusão na noite de anteontem porque alguém quis furá-la, um outro alguém levou o que seria o seu conforto extra. “Não vai dar para dormir o tempo todo, mas a gente se ajeita da forma que consegue”, disse, resignado.

Encostados nos gradis instalados recentemente após a pichação no prédio estavam os irmãos catarinenses Givanildo e Geórgio Oliveira, de 42 e 44 anos. Em São Paulo há 15 dias em busca de emprego, eles já tentavam juntar dinheiro para voltar para Itapema, no litoral de Santa Catarina, onde o frio também bate. “Mas lá posso ficar na casa de amigos. Aqui, não consigo serviço e tenho que aguentar o frio na rua. É uma máquina de moer gente”, disse Geórgio, que na noite de segunda conseguiu um cobertor a mais para doar a um senhor que dormia sem sinal de que acordaria diante dos barulhos remanescentes no fim da noite. “Alguns bebem para esquentar, mas o corpo não aguenta se for demais. Acaba sendo pior.” Enquanto a maior preocupação de Geórgio parecia ser a dificuldade em encontrar qualquer serviço como pintor, Givanildo reclamava da ausência de um par de tênis, que estava dificultando a sua rotina. 

Assim como eles, o vendedor José Antônio, de 50 anos, disse preferir a rua a ser acolhido em um dos abrigos municipais. Os motivos gerais vão desde brigas no interior das unidades, passando por supostas regras rígidas, como acordar às 5h da manhã, a problemas de infraestrutura. “Fui encaminhado hoje para um Atende (Atendimento Diário Emergencial), na Luz. Mas lá é um lixo, os banheiros são muito sujos, preferi sair. Aqui é mais tranquilo”, disse enquanto preparava para se deitar. 

Roberto Oliveira, da Praça da Sé, defende que os serviços deveriam ir além da oferta de cama e comida. “Albergue não era para ser só para dormir. Precisava de pessoas capacitadas para resolver os problemas profissionais e ajudar de fato os outros. Hoje, o serviço se resume a comer, dormir e brigar. Quem quer isso?”. Do seu lado, Efigênio Maria da Hora, de 42 anos, queria. Mas, só um coberto fino, foi a baixa temperatura que o convenceu mais rapidamente. Ele chegou a se levantar ao ter a notícia de que uma van estava no local fazendo a rota até os albergues, mas voltou decepcionado e se deitou novamente. O veículo estivera ali mais cedo e tinha previsão para voltar. À reportagem, o atendente do 156, acionado para atender Efigênio, anotou o chamado, mas disse que em razão da alta demanda o veículo poderia demorar até três horas para chegar ao local. 

No Largo São Bento, a Kombi trazendo os cinco integrantes da ação voluntária de uma igreja da Assembleia de Deus em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, distribuía sopa e suco em copos plásticos por volta da 2h da madrugada. Até levaram cobertores, mas naquele horário todos já haviam sido distribuídos. “Eles estão nos falando que realmente a situação está mais difícil por causa do frio”, disse a dona de casa Valéria Gomes de Lima, de 29 anos, que seguiria no local com o grupo até o momento em que o panelão fosse esvaziado. Há um ano, o grupo vai ao centro da capital todas as segundas realizar a atividade direcionada aos mais necessitados. 

Em uma necessidade crescente também estão as cerca de 300 pessoas que desde o dia 1º de maio estão no Largo do Paiçandu após o desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida. Eles se instalaram em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário, onde um cercadinho delimita ex-moradores do prédio de moradores de rua da região. “Somos os esquecidos. Mas eles (os moradores de rua) são os esquecidos dos esquecidos. Temos de ajudar um ao outro”, disse Rafael Ribeiro, de 32 anos, que morava há cinco no primeiro andar do prédio que caiu.

Na madrugada da terça, ele era um dos responsáveis pelo plantão formado pelos ex-moradores do prédio para fazer uma vigilância informal no cercadinho. O frio, disse ele, é mais um obstáculo para o grupo, que dormia em barracas no largo. “Até quando os secretários vão dormir no quentinho e vão nos deixar nessa situação? Todo mundo já esqueceu da gente.”

‘Maior desafio é convencê-los a ir para abrigos’, diz secretário

Secretário em exercício da pasta municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads), José Castro disse que o maior desafio enfrentado pelas equipes que atuam durante a noite e a madrugada é convencer a população em situação de rua para ir para os abrigos. “Na noite passada, tivemos quase 400 vagas que ficaram ociosas. Então, nosso maior desafio é justamente o processo de convencimento”, explicou Castro em entrevista à Rádio Eldorado.

Ao Estado, Castro informou que 619 novas vagas foram abertas em decorrências das baixas temperaturas, cerca de 4% a mais ante as 14.539 vagas existentes no total. O secretário disse que a sujeira relatada por um dos usuários não é a “realidade” desses centros. “Isso não condiz com que é estabelecido com as organizações parceiras. Temos reiterado a importância da manutenção adequada desses espaços”, disse. Sobre o relato de brigas, ponderou que as equipes técnicas têm tentado contornar os conflitos. 

Castro esclareceu ainda que as três horas para recolhimento a abrigos “é o prazo máximo, não o médio”, acrescentando que há possibilidade de dar prioridade no atendimento a casos de necessidade. Quanto à situação no Largo do Paiçandu, disse que está prestando a atenção devida e continua no trabalho de convencimento para retirada das pessoas do local.

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