Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

Qual a sua SP ideal? Se você não vive sem verde...

Nas franjas da cidade, Anhanguera, Cajaíba e Jaraguá são os distritos onde há mais vegetação

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2011 | 23h00

Não havia dia fácil para aquele moço que morava no meio do mato. O trabalho já começava lá pelas 3 da manhã, quando ele largava o barraco erguido entre as árvores para enfrentar às vezes três horas de caminhada até a Lapa, onde pegava uma condução para o centro. Na volta, o mesmo trajeto - ônibus, três horas a pé e de novo aquela imensidão de verde, barulho de bicho, sem casa nenhuma por perto a não ser a do seu Artur de Brito, o dono da fazenda. Difícil era, mas não foi para fazer corpo mole que ele tinha deixado mulher e filha na Paraíba. E lá saía ele a caminhar três horas de novo.

 

Foram assim os primeiros meses do seu Anílson Dantas da Silva, hoje um aposentado de 88 anos, naquele começo de 1961. Hoje ele é um dos pouquíssimos habitantes do bairro - de um total de 53 mil - que já estava lá quando toda aquela terra ainda era o Sítio Santa Fé - em 1978, a antiga fazenda foi comprada pela Prefeitura. E, criador de gatos e passarinhos, não larga de jeito nenhum o endereço que adotou como seu na capital - no distrito de Anhanguera, no noroeste da cidade, o local com mais área verde em parques e praças de São Paulo.

 

Apesar de algumas vilas e povoados terem crescido por ali nas últimas décadas, Anhanguera ainda é um dos bairros com menos habitantes da capital - o Jardim Ângela, na zona sul, tem quase seis vezes mais, para efeito de comparação. Isso se deve à grande área de preservação criada pela Prefeitura um ano depois da aquisição da fazenda. Desde 1979, o Parque Anhanguera ocupa 9,5 milhões de m², o equivalente a seis Ibirapueras e a 1.410 campos de futebol oficiais, a menos de 30 quilômetros da Praça da Sé.

 

Isso tudo faz do Anhanguera o maior parque municipal de São Paulo. E seu Anílson lembra de toda essa história. "Quando o velho Brito morreu, os herdeiros venderam tudo a preço de banana. Algumas indústrias vieram, mas a maior parte das terras continua mato." Na mesma época, Anílson conseguiu trazer a família do Nordeste para o meio das árvores do distrito. "Quando chegamos aqui, era tanto mato que todo mundo chamava meu pai de Tarzan, como se ele fosse o louco que vivia dentro da floresta", lembra a comerciante Maria Gorete Dantas da Silva, de 45 anos, filha do paraibano.

 

Atração. Além do parque, o distrito é composto por umas poucas ruas e quase nenhuma avenida e a maior atratividade da região é mesmo a área verde. Foi exatamente isso que conquistou o produtor rural José Cláudio Rodrigues, de 40 anos, nascido em Teófilo Otoni (MG) e morador do Anhanguera há 20 anos. "Queria um lugar tranquilo, parecido à minha terra, e acabei encontrando aqui."

 

Apaixonado pelo bairro, Claudinho, como é conhecido, hoje é dono de um pesque-pague. Como grande parte dos moradores da área, jura que não troca o Anhanguera por nenhum outro bairro de São Paulo. "A gente aqui vive em um lugar muito tranquilo. Quando vamos lá para a cidade, vemos tudo tão sujo, tão descuidado e com tanto trânsito que nem dá vontade de voltar. Fico até um pouco triste de dizer isso, porque essa foi a cidade que nos acolheu. Mas daqui não saio."

 

Na Cidade Tiradentes, a história é inversa

 

A história do motorista Carlos Aparecido Pereira, de 57 anos, também começa numa fazenda. Ele nasceu no extremo leste de São Paulo, na Fazenda Santa Etelvina, que também teve a maior parte das terras comprada pela Prefeitura nos anos 1970. Mas, em vez de dar lugar a um parque como em Anhanguera, suas árvores acabaram derrubadas para a construção de ruas, avenidas e um dos maiores conjuntos habitacionais da América Latina: a Cohab Cidade Tiradentes. "Derrubaram tudo, sem dó", lembra.

 

Carlos pode ser considerado sortudo no distrito. Sua casa fica no terreno onde ele nasceu, ao lado de um quintal cheio de árvores da época dos pais. O pequeno oásis contrasta com o cinza da Cidade Tiradentes, a região com menos parques e praças de São Paulo - são apenas 3 mil m² de área verde, bem menos que a média da cidade.

 

A explicação está na explosão de conjuntos habitacionais a partir de 1984, quando a Prefeitura inaugurou o bairro. "Quando nasci, a região devia ter umas 300 pessoas. Agora está beirando as 250 mil."

 

Quem também guarda memórias antigas da região é o sociólogo José de Souza Martins. Ele nasceu em um dos lotes que resultaram da divisão da antiga fazenda. "Para mim, a Santa Etelvina ainda é aquele imenso território de pequenos sítios esparsos, algumas chácaras, manchas de plantações de eucaliptos aqui e ali, cercados pela bela e exuberante Mata Atlântica." Martins deixou a região em 1950 e nunca mais voltou. "Teria uma grande decepção: a mata já não existe, córregos e rios estão poluídos, os pássaros se foram."

 

Mesmo com esses e outros problemas, a cultura local e a forte ligação entre as pessoas encantam moradores de Cidade Tiradentes. "Quem é daqui gosta do bairro. E, pouco a pouco, as coisas estão melhorando", diz Carlos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.