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Enquanto na República sobram opções, em Marsilac é preciso cruzar 19 bairros para ir ao cinema

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2011 | 23h00

Nas décadas de 1950 e 1960, uma biblioteca foi o ponto mais importante da vida cultural de um grupo de jovens intelectuais de São Paulo. Era no hall da Mário de Andrade, no distrito da República, que sociólogos, dramaturgos e poetas se reuniam toda semana - invariavelmente ao redor de uma estátua. Retratados pelo jornalista Perseu Abramo em volta do monumento A Leitura, ainda hoje no hall do prédio, ficaram conhecidos como "Os Adoradores da Estátua".

 

Seus objetivos não eram nada modestos: eles queriam fazer uma "revisão completa" da cultura brasileira. Bento Prado Jr., Manoel Carlos, Maurício Tragtenberg e Flávio Rangel eram alguns dos "adoradores". Nada melhor, diziam, do que planejar a renovação da cultura brasileira em um local habitado "pelo ectoplasma" do famoso escritor, "impregnado" pela cultura dele.

 

Pelo perfil do bairro, o local era também o mais adequado: a República concentra todos os teatros da Praça Roosevelt, 20 cinemas, a feira de artesanato da Praça da República, o Teatro Municipal, o Cultura Artística, a própria Mário de Andrade. É o distrito que mais oferece opções culturais em toda a cidade.

 

Morador do Edifício Copan desde 1966 e outro "adorador da estátua", o sociólogo Mauro Rubens de Barros, de 76 anos, se diz privilegiado. "Viver em um bairro frequentado por toda a intelligentsia de uma época não tem preço", diz ele, um dos líderes do "Movimento de Revisão". "Nosso ponto de encontro era o Clubinho dos Artistas, no Edifício Esther. Lá foi criado o Masp e encontrávamos Volpi, Ciccillo Matarazzo, Assis Chateaubriand, Aldemir Martins. Éramos os garotos da turma, mas vez por outra tirávamos lições de vida importantes."

 

A dar brilho novo à intensa atividade cultural da qual participou em 45 anos de República, "praticamente tudo", conta Barros, continua no mesmo local. "Ainda vou à Feira de Artes da República, nunca deixei de frequentar o Teatro Municipal, a Mário de Andrade está novinha de novo, a Praça Roosevelt renasceu como centro de formação teatral... Quem não conhece a República tem de vir conhecer."

 

Outro morador do distrito - um pouco mais recente, desde 1986 - é Pedro Herz, dono da Livraria Cultura. "Caminho pelas ruas e avenidas sendo apresentado a novos lugares e reconhecendo antigas moradas, como o Teatro Cultura Artística." Quando está em casa, conta, ele "não cansa" de admirar a vista "que se estende até a Serra da Cantareira". Outro privilégio de quem também vive no Copan - símbolo arquitetônico da cidade.

 

Oposto. Do lado oposto da vista a que Herz se refere, a quase 50 quilômetros de distância, a paisagem se torna bucólica. É Marsilac, o distrito mais ao sul da capital, que faz divisa com a litorânea Itanhaém. Ali não há estátuas, nem monumentos. Tampouco biblioteca ou cinema. Não há absolutamente nenhum equipamento cultural no distrito onde menos se oferece cultura na cidade. "Aqui o pessoal se vira como pode. É uma gente sofrida, mas feliz a seu jeito", diz a líder comunitária Maria Lúcia Cirillo.

 

Em Marsilac, aguarda-se com ansiedade os domingos do mês em que times de futebol de bairros próximos organizam torneios. "Também tem a Festa da Padroeira, mas só uma vez por ano. Antigamente, havia bailes uma vez por mês, até com concurso de ‘rainha’ do bairro, mas essa tradição infelizmente acabou", conta Maria Lúcia. "Hoje o que se busca são as oportunidades de sair um pouco, ‘ir até a cidade’."

 

Exatamente o que ocorreu na semana passada com 200 crianças de Marsilac que foram visitar o Sesc Interlagos, também na zona sul, como parte de programa da Prefeitura para férias escolares. Foi quando a garota Franciely Alves da Silva, de 11 anos, foi ao cinema pela primeira vez - 25 quilômetros longe de casa, ela finalmente conseguiu, após cruzar 19 bairros, assistir a Crepúsculo. "Melhor do que ficar em casa jogando videogame", disse a menina, em meio à algazarra de 11 crianças. De comum entre elas, uma pequena confissão: no dia anterior ao passeio, ficaram tão ansiosas que mal conseguiram dormir.

 

Mais ‘cults’

1º República

2º Consolação

3º Bela Vista

4º Santa Cecília

5º Pinheiros

6º Jardim Paulista

7º Vila Mariana

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