Tulio Kruse/Estadão
Tulio Kruse/Estadão

Quadrilha que roubou 720 kg de ouro usou ao menos 5 veículos e fez 8 reféns

Polícia apura se grupo é responsável por levar carga de Viracopos; autores conhecem 'meios de investigação policial', segundo delegado

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2019 | 13h54
Atualizado 27 de julho de 2019 | 15h34

SÃO PAULO - A quadrilha que roubou 720 quilos de ouro do terminal de cargas no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos,  na Grande São Paulo, utilizou ao menos cinco carros e fez oito reféns em dois cativeiros, em uma ação que durou mais de 36 horas - do sequestro de vítimas à fuga. A polícia estima que ao menos dez criminosos tenham participado do crime. 

A suspeita é de que a quadrilha tenha experiência nesse tipo de crime, pois "conhece os meios de investigação policial", segundo o delegado João Carlos Miguel Hueb, da 5ª Delegacia de Roubo a Bancos da Polícia Civil. Eles tentaram apagar impressões digitais nos carros usados – mas algumas foram coletadas, diz Hueb. O valor da carga é estimado em ao menos R$ 100 milhões, segundo a polícia.

A polícia investiga se a quadrilha é a mesma que assaltou o Aeroporto de Viracopos, em Campinas, em março de 2018. Na ocasião, o equivalente a R$ 16,5 milhões, prestes a embarcar em um voo da Lufthansa, foi interceptado por criminosos que invadiram o local. O crime teve características semelhanças. Foi usado um carro clonado com a identificação de uma empresa de segurança, que os bandidos abandonaram em seguida ao fazer uma troca dos carros de fuga.  

"Não foi, com certeza, o primeiro roubo deles", diz Hueb.

Sequestro

A ação começou na manhã de quarta-feira, 24, quando um supervisor do terminal de cargas do aeroporto foi abordado pelos criminosos enquanto guiava seu carro próximo à Avenida Jacu-Pêssego, na zona leste da capital. Ele estava acompanhado da mulher, e os criminosos saltaram de uma ambulância. 

A mulher foi obrigada a entrar na ambulância e vendada, enquanto um dos criminosos ficou no carro com o funcionário do aeroporto. Ali, segundo a polícia, teria informado que sabia sobre a chegada de uma carga de ouro no terminal de cargas no dia seguinte. 

Os criminosos orientaram o funcionário a não ir para o trabalho na quarta, e liberaram a vítima por algumas horas. Mais tarde, ele recebeu uma ligação dos assaltantes, que mandaram ele ir até a Avenida Jacu-Pêssego novamente para encontrá-los por volta das 16 horas de quarta. 

Dali, foram para a casa do funcionário, onde fizeram reféns também sua sogra, um casal de cunhados, seus dois filhos e o filho de um vizinho – que brincava com as outras crianças no momento em que os criminosos chegaram. Dois sequestradores ficaram no local com a família até o dia seguinte. 

Outro criminoso ficou em outro cativeiro apenas com a mulher sequestrada pela ambulância. A polícia acredita que ela tenha ficado em cárcere privado na região de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, onde foi liberada após o assalto ser concluído. O local exato do cativeiro e a ambulância ainda não foram encontrados.

Fuga

Após saírem do aeroporto em carros clonados com a identificação da Polícia Federal, os criminosos trocaram duas vezes de carro. As falsas viaturas foram deixadas no terreno de um depósito na Avenida Doutor Assis Ribeiro, na zona leste. No local, os criminosos dividiram a carga de 720 kg em duas caminhonetes blindadas, com placas falsas e "envelopadas" com um tecido para disfarçar a cor original dos veículos. 

O funcionário rendido, que foi levado com os criminosos mesmo após o roubo no terminal de cargas, ajudou a fazer a transferência da carga, segundo a polícia. De lá, os criminosos seguiram para a Avenida São Miguel, a poucos quilômetros de distância. Eles deixaram as caminhoetes nos fundos de uma danceteria de forró, e seguiram viagem. 

Após o roubo, a polícia demorou cerca de 40 minutos para chegar ao terminal de cargas. Para o delegado responsável pelo caso, não houve demora.

Ataques

Este é o décimo ataque a cargas de transportadoras de valor em aeroportos nos últimos três anos, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Transporte de Valor (ABTV). Desde 2016, foram registrados seis roubos em aeroportos, e outras três tentativas frustradas. 

O último caso ocorreu em março deste ano no Aeroporto Regional de Blumenau, em Santa Catarina, quando um carro-forte da transportadora Brinks foi atacada por uma quadrilha. Eles levaram R$ 9,8 milhões que iriam embarcar em um avião com destino a Curitiba, no Paraná. Uma mulher morreu após ser atingida por um disparo dos criminosos.

Na ocasião, os criminosos fugiram em uma falsa ambulância do Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu) que tinha placas clonadas de São Paulo, segundo informações da Polícia Civil de Santa Catarina. Três envolvidos foram presos cinco dias depois do crime. Investigadores em São Paulo dizem que pode haver troca de informações com a polícia catarinense para investigar se há relação entre os casos. 

O ano de 2016 foi o que registrou o maior número de ocorrências desse tipo. Três ataques a carros-forte que faziam entrega de valores em aeroportos foram atacados com sucesso em Ourinhos (SP), Floriano (PI) e Tabatinga (AM). Uma ataque em Recife no mesmo ano acabou sem sucesso.

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