Reprodução/Google Sreet View
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Quadrilha explode empresa de valores, mata policial e espalha terror em Araçatuba

Criminosos em vários carros usaram dinamite, granadas e fuzis no ataque à sede da Protege na cidade do interior de SP

Bibiana Borba e José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2017 | 06h26
Atualizado 16 Outubro 2017 | 19h42

SÃO PAULO E SOROCABA - Uma quadrilha com cerca de 30 homens fortemente armados explodiu a sede da empresa de transporte de valores Protege, roubou o dinheiro e espalhou o terror na área urbana de Araçatuba, na região noroeste do Estado de São Paulo, na madrugada desta segunda-feira, 16. Armados com fuzis ponto 50, arma com potência para derrubar aviões, além de granadas e dinamites, o bando matou um policial civil e atacou o quartel do Comando da Polícia Militar do Interior (CPI-10). Os criminosos usaram os explosivos para abrir o cofre forte da empresa - o valor levado não foi revelado.

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Em uma ação coordenada, a quadrilha se dividiu em grupos para bloquear os principais acessos à região e manter a PM aquartelada durante o roubo, disparando com fuzil e metralhadora. Os criminosos renderam um motorista e o obrigaram a atravessar o caminhão canavieiro no km 522 da Rodovia Marechal Rondon, interditando a pista próximo da base da Polícia Rodoviária. Também foram bloqueados o acesso para Birigui e a Ponte Rio Prado, sobre o Rio Tietê.

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Segundo a Polícia Civil, os criminosos estudaram os acessos e até a rotina do quartel, que fizera troca de turno pouco antes do início do ataque.

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Nas proximidades do CPI-10, dois caminhões foram incendiados, um em cada lado da rua, e as redes elétrica e de telefonia, atingidas pelo fogo, foram desligadas, dificultando a comunicação entre os policiais. Os criminosos se abrigaram atrás dos veículos em chamas e dispararam com fuzil contra o quartel, impedindo a saída dos policiais.

"O CPI está cercado com dois caminhões pegando fogo, um de cada lado. Tem bandidos do lado de fora, segurando nós aqui dentro. Eles estão atirando de fuzil", relatou um PM, usando um celular.

Morte e cenário de guerra

O policial civil André Luis Ferro da Silva, de 37 anos, que morava próximo do quartel da PM, tentou barrar a fuga dos criminosos e foi baleado. O investigador estava de folga e foi avisado pelo pai sobre a ação dos bandidos. Silva foi socorrido com vida, mas morreu na Santa Casa. Ele deixou mulher e duas filhas. O corpo foi velado à tarde, na cidade.

Moradores viram o bairro Santana, na zona norte, onde fica a Protege, virar um cenário de guerra.

"Teve rastro de balas traçantes no escuro, o fogo de um caminhão subindo pela fiação, gente desesperada buscando abrigo e o barulho de duas explosões seguidas. Estava um caos pior que nos morros do Rio", descreveu o comerciante José Orsolino, que mora a duas quadras da Protege. 

A estudante Cássia Fernandes contou que as explosões fizeram o chão tremer e estouraram vidraças de casas próximas. Ela viu uma mulher abandonar a moto na rua e se deitar na calçada durante a confusão. Duas mulheres foram feridas - uma levou um tiro no pé, outra foi atingida por estilhaços na barriga. 

Com apoio de tropas de Birigui, a PM tentou bloquear as saídas da cidade, mas não conseguiu deter os criminosos em fuga. Explosivos encontrados em um caminhão abandonado próximo da Protege foram inutilizados pelo Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da PM de São Paulo. 

A Secretaria da Segurança Pública do Estado informou que as Polícias Civil e Militar de Araçatuba realizavam buscas na região visando à identificação e prisão da quadrilha. Segundo a SSP, o policial civil baleado e morto no ataque integrava a equipe do Grupo de Operações Especiais (GOE). Ainda segundo a pasta, as duas mulheres feridas foram levadas ao hospital, medicadas e liberadas.

Em nota, a Protege confirmou o assalto, mas disse que vigilantes e funcionários estavam em segurança e que a empresa colabora com as autoridades na investigação em curso. Também informou que investe constantemente em novas tecnologias para aprimorar suas operações.

 

Casos

O assalto em Araçatuba é o quinto praticado contra empresas de transporte de valores em menos de dois anos no interior de São Paulo. Em todos os casos, o modus operandi das quadrilhas foi parecido. Os criminosos com alto poder de fogo e em veículos rápidos incendiaram caminhões e carros para bloquear ruas e agiram em várias frentes ao mesmo tempo para evitar a reação policial.

No dia 6 de novembro de 2015, uma quadrilha com ao menos 20 homens atacou a unidade da Prosegur em Campinas. O bando bloqueou as ruas, à margem da Rodovia Santos Dumont, metralhou a empresa e usou explosivos para detonar o cofre.

Em 13 de março de 2016, uma quadrilha usando armas de guerra incendiou veículos e explodiu a sede da Protege no bairro São Bernardo, em Campinas. O bando teria levado R$ 50 milhões, mas parte da quadrilha foi presa. 

No dia 4 de abril de 2016, criminosos explodiram e assaltaram a base da Prosegur em Santos. Houve troca de tiros, perseguição e três pessoas - dois policiais e um morador de rua - morreram. Não foi divulgado o valor roubado.

Já no dia 5 de julho do mesmo ano, cerca de 40 homens atacaram a empresa Prosegur, no bairro Campos Elíseos, em Ribeirão Preto. Durante a fuga, os bandidos mataram um policial militar rodoviário e um morador de rua. Eles teriam levado de R$ 40 a R$ 50 milhões.

Neste ano, uma quadrilha de brasileiros foi agir no Paraguai. Cerca de 40 homens cercaram e explodiram o prédio da Prosegur em Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil. O bando teria roubado R$ 120 milhões - valor contestado pela empresa. Um policial e três suspeitos foram mortos.

Em outros Estados, conforme a Associação Brasileira de Empresas de Transportes de Valores (ABTV), houve um ataque no dia 5 de setembro a uma base da Prosegur, em Marabá, no Pará, e no dia 11 de dezembro, a uma empresa não divulgada, em Teresina, no Piauí.

O número de ataques a carros-fortes, geralmente com explosivos, também está crescendo em todo País, segundo a associação. Foram 76 em 2015, número que subiu para 94 no ano passado. Neste ano, até setembro, já somam 76 casos. Segundo a ABTV, as empresas associadas respondem pela movimentação de cerca de R$ 20 bilhões por dia em todo o País. 

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