Próximo júri do Carandiru terá ex-chefe da Rota

Pivô da guerra entre PCC e PM no ano passado, tenente-coronel Salvador Modesto Madia deverá ser julgado em setembro com outros 30 agentes

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2013 | 02h07

A condenação a 156 anos de prisão de 23 PMs da Rota que agiram no primeiro andar do Pavilhão 9 da Casa de Detenção vai ser usada pelo Ministério Público Estadual (MPE) contra os próximos 31 réus do processo, que devem ser julgados em setembro. Trata-se de tropa das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), responsável pelo maior número de mortes ocorrido no presídio - 73 dos 111 detentos.

"Em razão da decisão, está superada a questão de que o julgamento deveria discutir a conduta individualizada. Os jurados acolheram a acusação de conduta coletiva", disse o promotor Fernando Pereira da Silva. Para a advogada Ieda Ribeiro de Souza, que defenderá os acusados, o resultado será diferente. "Vão ter novos jurados, um novo conselho de sentença, novas pessoas trabalhando para entender esse caso."

Considerado um dos pivôs dos conflitos entre integrantes da Polícia Militar e do Primeiro Comando Capital (PCC) em 2012, o tenente-coronel Salvador Modesto Madia estará entre os réus. No dia da invasão ao Carandiru, em 2 de outubro de 1992, Madia era tenente e o quarto homem na linha de comando da tropa que retomou o terceiro pavimento do pavilhão 9.

Madia era comandado pelo capitão Valter Alves Mendonça e atuou com 28 homens da Rota. O coronel Luiz Nakaharada, que em 1992 era do 3.° Batalhão de Choque e o oficial mais graduado depois do coronel Ubiratan Guimarães, comandante da operação, também será julgado. Nakaharada é apontado em testemunhos como autor de pelo menos cinco homicídios no local.

Em novembro de 2011, Madia assumiu o comando da Rota em substituição ao tenente-coronel Paulo Telhada, hoje vereador pelo PSDB. Seis meses depois, integrantes do PCC passaram a matar policiais militares. A atuação da Rota, que havia matado lideranças da facção, foi um dos motivos apontados para explicar os ataques. Em setembro de 2012, no auge da crise da segurança, Madia foi retirado do comando da Rota e assumiu o 4.° Batalhão de Choque.

Liberdade. Vários advogados dos réus condenados ontem já entraram com recurso. "A decisão dos jurados foi manifestamente contrária às provas contidas nos autos", diz a advogada Ieda Ribeiro de Souza. Apesar da pena de 156 anos aplicada ontem, os 23 PMs condenados devem ficar ainda alguns anos em liberdade até a sentença transitar em julgado. Alguns devem seguir trabalhando, como o capitão do Corpo de Bombeiros Marco Ricardo Polinato, que na época era soldado da Rota.

Para o advogado Marcelo Feller, a importância política do caso pode até acelerar o trâmite do julgamento, que costuma ser lento. Em situações normais, segundo Feller, o recurso no Tribunal de Justiça pode levar de seis meses a um ano. Nos tribunais superiores, como o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal, casos normais podem levar três anos.

O promotor Maurício Ribeiro Lopes avalia também que cada caso tem um tempo diferente. "Quando o réu está solto, demora muito mais do que quando ele está preso. Mas o caso do Carandiru é fora de qualquer parâmetro." Segundo ele, não há prazo para julgamentos nos tribunais superiores. Essa é a preocupação do promotor Pereira da Silva, que atuou no júri. "O caso já levou 20 anos. Esperamos que os recursos não levem o mesmo tempo". / COLABOROU RODRIGO BURGARELLI

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