Protesto força cancelamento de audiência sobre a cracolândia

Comerciantes da Santa Ifigênia, insatisfeitos com reforma da área, ameaçavam tumulto ainda maior

, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2011 | 00h00

Por falta de segurança, a Polícia Militar não permitiu a realização, no início da noite de ontem, da primeira audiência pública da Prefeitura para a apresentação do projeto de revitalização da cracolândia, área degradada no centro de São Paulo.

Mil pessoas, a maior parte comerciantes da Rua Santa Ifigênia que lotaram o auditório da Fatec do Bom Retiro, não deixaram o secretário Miguel Bucalen, de Desenvolvimento Urbano, iniciar o evento.

O grupo protesta contra a desapropriação de três quadras da região, reduto do comércio de produtos eletrônicos.

"A PM indicou que não existe segurança para abrir a audiência. Vamos remarcá-la para um lugar maior o mais rápido possível", anunciou às 19h35 o secretário, sob vaias da plateia.

O clima dentro da Fatec era de estádio de futebol. Cerca de 200 pessoas ficaram do lado de fora e quase houve tumulto com a PM. Dentro, os manifestantes, com nariz de palhaço, gritavam "fora Kassab".

Comerciantes pretendiam lançar cadeiras da parte mais alta do auditório caso a audiência não fosse cancelada. Policiais perceberam que o tumulto poderia aumentar e pediram para o secretário suspender o evento.

Reforma. A revitalização da cracolândia, chamada de Nova Luz, prevê a reforma de 45 quadras, das quais 28% serão demolidas. Três quadras serão desapropriadas na Rua Santa Ifigênia.

"Esse projeto vai contra os 200 anos de história da nossa rua. Querem transformar o centro numa nova Faria Lima para ricos", criticou o lojista Aldeir Faezzi, de 38 anos.

Sem pancadaria. Foi o segundo dia consecutivo de protesto pelas ruas do centro da capital.

Ontem, os comerciantes interditaram vias da região, mas não houve confronto com os policiais militares.

Na quinta-feira, estudantes fecharam a Avenida Ipiranga em protesto contra o aumento da tarifa de ônibus, que passou de R$ 2,70 para R$ 3.

A Força Tática disparou balas de borracha e usou gás lacrimogêneo contra o grupo para dispersar a manifestação e desobstruir o bloqueio das vias.

Mais de 30 estudantes foram detidos e houve relatos de que entre cinco e dez participantes teriam ficado feridos com balas de borracha e estilhaços de vidros.

A PM nega que tenha agido com truculência com os estudantes.

Os lojistas atearam fogo em sacos de lixo e entulho e fecharam o acesso das Ruas Vitória, Andradas e da maior parte da Santa Ifigênia.

De acordo com a PM, 1.200 pessoas participaram da manifestação. Os lojistas dizem ter sido 2 mil.

Lojas de eletrônicos e de peças de motos fecharam as portas por cerca de 20 minutos, em apoio ao protesto.

Os manifestantes foram apenas acompanhados pela Polícia Militar.

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