Nacho Doce/Reuters
Nacho Doce/Reuters

Protesto bloqueia Marginal do Pinheiros

Moradores de favela que registrou incêndio na sexta-feira fecharam a via por 1h30

Damaris Giuliana, Tiago Dantas, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

Um protesto de moradores da Favela Real Parque, no Morumbi, zona sul, bloqueou ontem, por cerca de 1h30, a Marginal do Pinheiros, sentido Interlagos, na altura da Ponte Octavio Frias de Oliveira. Na sexta-feira, 320 barracos foram queimados em um incêndio cuja causa ainda não foi descoberta. Dois ônibus foram usados para bloquear a via e pneus foram queimados. A Polícia Militar reagiu com bombas de gás.

Segundo relato do motorista de um dos ônibus usados para interditar a via, que não quis se identificar, dois homens invadiram o veículo por volta das 18h30 para iniciar a manifestação. Eles se comunicavam por rádio com outras pessoas. "Parei no ponto para deixar dois passageiros. O ônibus estava lotado. Entraram dois caras, tomaram a direção e colocaram o ônibus no meio da pista, atravessado. Eles começaram a quebrar as janelas, os passageiros entraram em pânico e saíram correndo. Eles gritavam que queriam as casas deles de volta."

De acordo com o tenente Teizen, do 16.º Batalhão da Polícia Militar, os manifestantes estavam bastante alterados. "Fomos recebidos com certa hostilidade. Jogaram pedras, rojões e botijões de gás."

Trânsito. A pista expressa foi liberada às 19 horas, segundo a PM. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) informou que, nesse horário, havia 7,1 quilômetros de congestionamento, da Ponte do Jaguaré até a Ponte do Morumbi. Avenidas como Giovanni Gronchi e Morumbi tiveram tráfego intenso.

A pista local permaneceu bloqueada até as 19h55, quando a CET conseguiu rebocar um ônibus de turismo da empresa Anjo Azul, que foi depredado. A CET e a PM orientaram os motoristas a retornar na contramão até o Shopping Cidade Jardim para que entrassem na via expressa. Dezenas de ônibus articulados das empresas Campo Belo, Gatusa, Transkuba e VIP, integrantes do Consórcio 7, foram esvaziados. Os passageiros tiveram de esperar por outras conduções na pista expressa. Para desocupar a via, os veículos voltaram de ré.

Cenário. Dezenas de viaturas e motos do policiamento ostensivo e da Força Tática foram para o local. Diversas ambulâncias do resgate e caminhões do Corpo de Bombeiros também foram acionados. Por volta das 19h30, o cheiro de objetos queimados ainda era forte, apesar da chuva. Centenas de pedras e estilhaços de vidro estavam espalhados pela Marginal. A reportagem encontrou uma granada detonada. Na calçada, havia restos de móveis e de eletrodomésticos queimados.

Os poucos moradores que permaneciam na via passavam o tempo todo observando a movimentação da polícia. Entre si, reclamavam por não poderem subir para suas casas. Policiais entraram na favela e, da Marginal, eram ouvidos disparos. O capitão Luis Dias confirmou o uso de "material para conter distúrbio". Segundo ele, o policiamento permaneceria na região durante toda a madrugada.

Em nota, a Secretaria Municipal de Habitação condenou a ação e informou que o protesto foi iniciado após reunião com vítimas do incêndio de sexta-feira. Nela, a Prefeitura teria informado que os moradores receberiam auxílio aluguel de R$ 400 por quatro meses e uma garantia de moradia definitiva, mas "uma pequena parcela dos moradores não aceitou essa decisão".

PARA LEMBRAR

Incêndio destruiu 320 barracos

O incêndio registrado na Favela Real Parque na sexta-feira foi o maior do ano em número de barracos destruídos: 320. Cerca de 1,2 mil pessoas ficaram desabrigadas. Segundo a Secretaria Municipal da Habitação, 1.131 famílias moram na favela. No mesmo dia, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) criou uma câmara técnica para analisar os incêndios em favelas na cidade. Para a Prefeitura, a frequência com que eles têm acontecido (foram 58 neste ano) demonstra que deve haver alguma "anomalia". Em 30 dias deve sair o laudo que apontará as causas do incêndio na Real Parque.

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