Protegido por lei, foragido aparece

Como ninguém pode ser preso no período eleitoral, Evandro Gomes Correia, acusado de matar a ex-mulher há dois anos, convocou entrevista coletiva

Camila Haddad, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2010 | 00h00

O escritório do criminalista Ademar Gomes, na Avenida Brasil, nos Jardins, foi tomado ontem por jornalistas à espera do pagodeiro foragido Evandro Gomes Correia, de 38 anos. Acusado de matar a ex-mulher em 2008 e com pedido de prisão preventiva decretado, ele aproveitou que em período eleitoral ninguém pode ser preso - a não ser em flagrante - para dar entrevista e chorar.

De terno e parecendo bem à vontade, chegou às 15h05 com peruca, barba e bigode postiços. E disse que continuará fugindo após as eleições. Também alegou inocência. "Preciso mostrar minha verdade ao juiz. Pelo amor de Deus, gente, me ajuda. Não joguem inocente na cadeia." Em dezembro de 2008, Andréia Cristina Bezerra Nóbrega, de 31 anos, e o filho do casal, então com 6 anos, caíram do 3.º andar do prédio onde moravam, em Guarulhos. O menino sobreviveu. O pagodeiro passou a ser o principal suspeito pela morte de Andréia.

Ele chorou quando perguntaram como estava sua vida. "De ponta-cabeça", disse, contando que vive no Nordeste, está casado e usa nome falso. Depois, virou para uma das câmeras de TV e falou: "Papai é inocente, filho, você sabe".

Para Evandro, Andréia tinha "tendências suicidas". Secretárias do escritório entregaram reproduções de fotos de Andréia com frases supostamente escritas em tom de despedida. "Fiquei com muito medo de ser linchado, queria só sair dali", disse Evandro, ao explicar por que fugiu da cena do crime. Em sua versão, Andréia cortou a mangueira do gás do apartamento após ficar irritada ao saber que ele vivia outro relacionamento. A família dela nega.

Amparado pelos advogados Ademar Gomes e Mauro Nacif, Evandro disse que fez a coisa certa ao se apresentar em período eleitoral. Segundo Gomes, corre no Superior Tribunal de Justiça pedido de habeas corpus para o pagodeiro. No final da entrevista, Evandro tirou um CD de pagode do bolso e posou para fotos. Em seguida, entregou o disco para a reportagem.

Ele fez questão de dizer que é evangélico e até está pensando em votar no próximo domingo, na zona sul de São Paulo. Já seu advogado afirmou que seu cliente vai votar, sim, e, com isso, "cumprir o dever de cidadão".

Repercussão. O aparecimento do pagodeiro revoltou o Ministério Público e a defesa da família da ex-mulher dele Andréia Cristina Bezerra Nóbrega.

"É uma afronta à Justiça e ao MP", queixou-se o promotor Rodrigo Merli Antunes, responsável pela acusação contra Correia. "Mas ele faz isso, infelizmente, com o consentimento do legislador."

Inconformado, o advogado da família de Andréia, Fernando José da Costa, chegou a encaminhar ontem uma petição ao juiz Leandro Cano, de Guarulhos, requerendo a prisão do músico. "O dispositivo do Código Eleitoral traz uma proteção única e exclusivamente relacionada ao direito de votar." Não recebeu resposta. "O que eu fico perplexo é como uma pessoa vestida de Raul Seixas anda por aí, dá entrevistas e só a polícia não consegue prendê-lo."

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