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Proteção ao alcance das suas mãos

Nas últimas semanas, ganhou espaço na mídia a história de alguns indivíduos ou grupos, "os carimbadores", que estariam deliberadamente transmitindo o HIV, o vírus causador da aids, por via sexual, para outras pessoas. Basicamente "carimbar" seria contaminar intencionalmente alguém que não deseja.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

29 Março 2015 | 02h03

A história lembrou um pouco as festas de conversão (convertion parties) que foram notícia nos EUA há alguns anos. Nelas, pessoas soropositivas faziam sexo sem proteção com outras que queriam, voluntariamente, se contaminar. Quando alguém se infectava, a conversão sorológica era comemorada. As causas desse fenômeno são múltiplas e complexas, mas o movimento foi considerado, por muitos, como uma rejeição de um determinado grupo às políticas de prevenção trabalhadas há décadas.

Existe uma diferença importante entre os dois exemplos. No caso das festas, haveria o desejo consciente dos frequentadores de se contaminar. Essa seria a razão primordial delas. Já no caso dos carimbadores, haveria uma intenção de alguns em infectar outros que, possivelmente, não queriam se tornar portadores do vírus.

A repercussão sobre os carimbadores aqui, nas últimas semanas, tomou alguns caminhos preocupantes. Sobraram discursos de ódio e preconceito contra os soropositivos, principalmente contra os homens que se contaminaram em relações com outros homens ou com profissionais do sexo, justamente em um momento em que essas populações voltaram a ficar mais vulneráveis à infecção pelo HIV. Dados de pesquisas mostram que a percepção de risco e a adesão à camisinha caíram nesses grupos.

Bom lembrar que, no Brasil, são quase 740 mil portadores do HIV, e cerca de 20% deles desconhecem seu status sorológico. A maioria dessas pessoas se infectou em relações sexuais desprotegidas, em que não havia um desejo ou vontade explícita de se contaminar - e muitos menos de contaminar o parceiro ou parceira. Nesse sentido, os carimbadores e as festas de conversão são absolutas exceções, que merecem uma abordagem específica.

Ao tratar do assunto como se fosse corriqueiro e usual (o que não é verdadeiro), corre-se o risco de fortalecer estigmas contra essas populações, hoje já fragilizadas por preconceitos, violências, exclusão de direitos e que, para piorar, vêm enfrentando grupos conservadores, com motivações religiosas e políticas, que causam impacto em diversos setores da vida.

Como bem lembrou Richard Parker, pesquisador e coordenador da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), um dos maiores estudiosos da epidemia no Brasil, em artigo recente publicado no site da Agência de Notícias da Aids, criminalizar e penalizar indivíduos por contaminar alguém pode ir totalmente contra os princípios mais básicos das estratégias de prevenção, além de que se corre o risco de ferir questões fundamentais dos direitos humanos.

De alguma forma, quando dois indivíduos adultos, conscientes dos seus atos, decidem que vão fazer sexo sem camisinha, sabem que estão correndo riscos. Ainda mais quando se trata de sexo casual, sem nenhum tipo de vínculo.

Estratégia. Lógico que há pessoas soropositivas que não estão nem aí para os outros. Querem transar sem camisinha, viver seu desejo, podem até sentir um prazer adicional em saber que estão colocando outra pessoa em risco. Há, como em todos os outros grupos sociais, gente com desvios de personalidade que não consegue ter empatia pela dor ou pelo sofrimento do outro. Mas, novamente, eles não são a regra.

Investigar o que está por trás dessa resistência crescente ao uso regular da camisinha e buscar entender por que ignorar ou correr riscos é tão atraente na hora do sexo para tanta gente podem ser estratégias muita mais efetivas do que culpar um ou outro indivíduo. Para isso, é fundamental as pessoas perceberem que a proteção mais eficaz contra o HIV está em suas próprias mãos.

É PSIQUIATRA

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